Crônicas de uma quarta-feira inexplicável

Ana Gonçalves

Na cozinha, do nada, ouço uma voz.

O liquidificador pediu demissão,

alegando excesso de rotação,

disse que não aguentava mais

bater banana sem estabilidade emocional e com a expressão de indignação. 

 

A colher, também muito indignada,

entrou com uma ação judicial, dizendo:

“Fui mergulhada no café

e isso é abuso profissional.”

 

Enquanto isso, uma barata de terno

discursava na cozinha enquanto me preparava para jantar, dizendo:

“Senhoras, senhores e legumes,

hoje vim aqui para me candidatar.”

 

O tomate bateu palmas,

a cebola começou a chorar,

o arroz, completamente perdido,

perguntou se podia se aposentar.

 

Lá fora, minha bicicleta

discutia com um beija-flor

sobre os rumos da economia

e a decadência da temperatura e futuras ondas de calor.

 

Meu chinelo, traumatizado,

se recusava a andar pelo chão.

Disse que estava cansado

de carregar minha reputação.

 

Corri para o banheiro e joguei uma agua no rosto,

E no banheiro, o espelho

me olhou com preocupação:

“Você está bem?”

Eu disse: “Não sei não,

mas hoje to no ápice da loucura e total confusão.”

 

Foi quando o teto caiu para cima,

o relógio começou a espirrar,

e uma batata filosófica

me chamou para conversar:

“Se a vida é feita de escolhas,

por que eu nasci no purê?”

Então, nem eu  soube responder.

 

Fui tentar dormir.

Mas meu travesseiro

tinha marcado reunião

com o sindicato das cobertas e um tal de Curumim.

 

E assim terminou a quarta-feira,

sem começo, meio ou conclusão.

Porque quinta-feira aparentemente,

tinha sido presa

por excesso extremo de confusão.

  • Autor: Ana Gonçalves (Pseudónimo (Offline Offline)
  • Publicado: 17 de setembro de 2026 00:05
  • Categoria: Conto
  • Visualizações: 1


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