Na cozinha, do nada, ouço uma voz.
O liquidificador pediu demissão,
alegando excesso de rotação,
disse que não aguentava mais
bater banana sem estabilidade emocional e com a expressão de indignação.
A colher, também muito indignada,
entrou com uma ação judicial, dizendo:
“Fui mergulhada no café
e isso é abuso profissional.”
Enquanto isso, uma barata de terno
discursava na cozinha enquanto me preparava para jantar, dizendo:
“Senhoras, senhores e legumes,
hoje vim aqui para me candidatar.”
O tomate bateu palmas,
a cebola começou a chorar,
o arroz, completamente perdido,
perguntou se podia se aposentar.
Lá fora, minha bicicleta
discutia com um beija-flor
sobre os rumos da economia
e a decadência da temperatura e futuras ondas de calor.
Meu chinelo, traumatizado,
se recusava a andar pelo chão.
Disse que estava cansado
de carregar minha reputação.
Corri para o banheiro e joguei uma agua no rosto,
E no banheiro, o espelho
me olhou com preocupação:
“Você está bem?”
Eu disse: “Não sei não,
mas hoje to no ápice da loucura e total confusão.”
Foi quando o teto caiu para cima,
o relógio começou a espirrar,
e uma batata filosófica
me chamou para conversar:
“Se a vida é feita de escolhas,
por que eu nasci no purê?”
Então, nem eu soube responder.
Fui tentar dormir.
Mas meu travesseiro
tinha marcado reunião
com o sindicato das cobertas e um tal de Curumim.
E assim terminou a quarta-feira,
sem começo, meio ou conclusão.
Porque quinta-feira aparentemente,
tinha sido presa
por excesso extremo de confusão.