Cães de Rua
Há cães de rua
que passam a madrugada
bebendo chuva das sarjetas
e ouvindo blues
pela porta entreaberta dos bares.
Eles sabem.
Sabem que o homem com a guitarra
está tão fodido quanto eles.
Sabem que aquela nota torta
não é música
é um pedido de socorro
com sapatos velhos.
Um vira-lata
encosta o focinho na porta.
O sax geme.
O cão fecha os olhos.
Talvez se lembre
de alguma coisa que nunca teve.
Talvez de uma casa.
Talvez de um dono.
Talvez de Deus.
Lá dentro,
os homens bebem
para esquecer que estão vivos.
Lá fora,
os cães escutam blues
porque já esqueceram
como se espera por salvação.
Quando o bar fecha,
a música morre.
Os homens vão embora.
Os cães ficam.
A madrugada acende um cigarro
na boca da cidade.
E eles continuam ali,
fiéis como condenados,
esperando a próxima canção
que ninguém escreveu para eles.
enitnatsnoC oãoJ --
-
Autor:
enitnatsnoC oãoJ (Pseudónimo (
Offline) - Publicado: 9 de setembro de 2026 08:58
- Categoria: Não classificado
- Visualizações: 2
- Usuários favoritos deste poema: Michel F.M.
- Em coleções: enitnatsnoC oãoJ.

Offline)
Para poder comentar e avaliar este poema, deve estar registrado. Registrar aqui ou se você já está registrado, login aqui.