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Cães De Rua

Cães de Rua

 

Há cães de rua

que passam a madrugada

bebendo chuva das sarjetas

e ouvindo blues

pela porta entreaberta dos bares.

 

Eles sabem.

 

Sabem que o homem com a guitarra

está tão fodido quanto eles.

 

Sabem que aquela nota torta

não é música 

é um pedido de socorro

com sapatos velhos.

 

Um vira-lata

encosta o focinho na porta.

 

O sax geme.

 

O cão fecha os olhos.

 

Talvez se lembre

de alguma coisa que nunca teve.

 

Talvez de uma casa.

Talvez de um dono.

Talvez de Deus.

 

Lá dentro,

os homens bebem

para esquecer que estão vivos.

 

Lá fora,

os cães escutam blues

porque já esqueceram

como se espera por salvação.

 

Quando o bar fecha,

a música morre.

 

Os homens vão embora.

 

Os cães ficam.

 

A madrugada acende um cigarro

na boca da cidade.

 

E eles continuam ali,

fiéis como condenados,

esperando a próxima canção

que ninguém escreveu para eles.

 

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