Diálogo com Charles

Ayalah Verônica Berg

 

Angústia atroz, despótica,
impõe sua voz
na cabeça inclinada.
 
Confirmo coisas e repito:
registro do gás — fechado.
janelas — fechadas.
sombras — reais.
portas — fechadas.
cães — normais.
 
Qual de nós me controla?
Eu.
Ainda eu.
 
Odeio o que move as linhas.
Não choro.
Não rio.
 
O cérebro se despede
devagar,
iludido,
como quem apaga
um a um
dos pensamentos estranhos.
 
E contudo,
nesse tédio sensato,
resta um ardor secreto:
conferir o desejo
e pular, sem malícia...
que uma paixão impossível
nos acerte.
 
Tudo fecha.
Tudo confere.
Tudo, enfim, me confirma:
respirar é o absurdo
de um hábito atento
que a noite corteja
e condena. 
 
 
Diálogo com Charles 
 de Ayalah Verônica Berg 

 

  • Autor: Ayalah Berg (Pseudónimo (Offline Offline)
  • Publicado: 9 de setembro de 2026 06:40
  • Comentário do autor sobre o poema: "Todo o meu cérebro se vai morrendo" – Baudelaire
  • Categoria: Não classificado
  • Visualizações: 12
  • Usuários favoritos deste poema: Ayalah Verônica Berg, Francisco Queiroz, Morlock


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