Angústia atroz, despótica,
impõe sua voz
na cabeça inclinada.
Confirmo coisas e repito:
registro do gás — fechado.
janelas — fechadas.
sombras — reais.
portas — fechadas.
cães — normais.
Qual de nós me controla?
Eu.
Ainda eu.
Odeio o que move as linhas.
Não choro.
Não rio.
O cérebro se despede
devagar,
iludido,
como quem apaga
um a um
dos pensamentos estranhos.
E contudo,
nesse tédio sensato,
resta um ardor secreto:
conferir o desejo
e pular, sem malícia...
que uma paixão impossível
nos acerte.
Tudo fecha.
Tudo confere.
Tudo, enfim, me confirma:
respirar é o absurdo
de um hábito atento
que a noite corteja
e condena.
Diálogo com Charles
de Ayalah Verônica Berg