Hoje a cidade repousa em contorno de chuva e trovão,
e sob a calada da noite, a mente enfim encontra sua preposição.
Cessa o rumor do asfalto, recolhe-se a vã correria,
na penumbra desponta a ordem que foge da luz do dia.
É na vigília das horas tardias, onde o tempo vacila e desiste,
que a alma acende a pergunta que desde o princípio resiste.
Entre o fluxo das águas secretas do próprio pensar,
nas dobras do inconsciente, onde o verbo custa a brotar,
fui levada de súbito ao centro da mais antiga oração,
a figura de Deus que reitera história e na solidão.
Não apenas o mito talhado em velhos altares de pedra,
mas a centelha que queima naquilo que em nós nunca quebra.
Que enigma seria este fôlego breve e pungente?
O primeiro espanto de um recém-nascido expulso do calor do ventre materno,
o choro que rompe o escuro de forma tão insolente,
a estranheza de encher o pulmão com oxigênio ao recuperar do grito de um ser existente,
sentindo na pele a troca de ar e o choque térmico,
seria apenas a entrada para um vazio eterno?
Dizer que viemos do nada, tragados por mero acaso,
que a vida é só um parêntese cego marchando ao ocaso,
é negar a centelha do espírito que o homem sempre buscou,
desde as cavernas e templos até onde a razão nos levou.
Se o fechar das pálpebras fosse apenas a escuridão derradeira,
por que arderia no peito essa sede tão verdadeira?
A psique não sonha em vão com o infinito que a chama,
Creio eu, que existe uma herança do sagrado que sob a matéria reclama.
Não somos só poeira esquecida num cosmos a vácuo e sem fim,
a própria madrugada que pensa já traz a eternidade em si.
-
Autor:
Ana Gonçalves (Pseudónimo (
Offline) - Publicado: 6 de setembro de 2026 03:08
- Categoria: Reflexão
- Visualizações: 2
- Usuários favoritos deste poema: Michel F.M.

Offline)
Para poder comentar e avaliar este poema, deve estar registrado. Registrar aqui ou se você já está registrado, login aqui.