Ana Gonçalves

Liturgia da consciência na madrugada silente

Hoje a cidade repousa em contorno de chuva e trovão,

e sob a calada da noite, a mente enfim encontra sua preposição.

Cessa o rumor do asfalto, recolhe-se a vã correria,

na penumbra desponta a ordem que foge da luz do dia.

É na vigília das horas tardias, onde o tempo vacila e desiste,

que a alma acende a pergunta que desde o princípio resiste.

Entre o fluxo das águas secretas do próprio pensar,

nas dobras do inconsciente, onde o verbo custa a brotar,

fui levada de súbito ao centro da mais antiga oração,

a figura de Deus que reitera história e na solidão.

Não apenas o mito talhado em velhos altares de pedra,

mas a centelha que queima naquilo que em nós nunca quebra.

Que enigma seria este fôlego breve e pungente?

O primeiro espanto de um recém-nascido expulso do calor do ventre materno,

o choro que rompe o escuro de forma tão insolente,

a estranheza de encher o pulmão com oxigênio ao recuperar do grito de um ser existente,

sentindo na pele a troca de ar e o choque térmico, 

seria apenas a entrada para um vazio eterno?

Dizer que viemos do nada, tragados por mero acaso,

que a vida é só um parêntese cego marchando ao ocaso,

é negar a centelha do espírito que o homem sempre buscou,

desde as cavernas e templos até onde a razão nos levou.

Se o fechar das pálpebras fosse apenas a escuridão derradeira,

por que arderia no peito essa sede tão verdadeira?

A psique não sonha em vão com o infinito que a chama,

Creio eu, que existe uma herança do sagrado que sob a matéria reclama.

Não somos só poeira esquecida num cosmos a vácuo e sem fim,

a própria madrugada que pensa já traz a eternidade em si.