Exílio de si

Ana Gonçalves

Desafio o teu passo a pisar onde exatamente estás,

sem o resto de ontem, sem a sede do além.

Apenas um dia de trégua e de paz,

amar este instante e nada mais.

Pois o amor não caduca, morre menino,

pois, demanda coragem de ser amplidão,

é preciso ser vasto ao traçar o destino,

sem medo da própria e sutil solidão.

Brota no peito quando a alma está só,

mas encontra seu fim no cansaço do mesmo nó,

quando o estar apartado parece melhor e o silêncio sufoca o calor de uma voz.

Corre, então, e congela com pressa o segundo,

rabiscando de luz cada cena ao redor.

No reflexo da tela que encobre o teu mundo,

selfie-se quem puder ante o abismo maior.

Ser moldura do outro é perder o compasso,

quem é grande de fato aprende a faltar.

Não cabe em cabresto, não cabe em pedaço, nem nega a si mesmo pra se enquadrar.

Entre a pose fugaz e o instante do que existe,

o espelho pergunta o que resta afinal.

Se o passar destes anos em pressa consiste,

tua vida foi cena ou sopro real?

Olha em volta, desfaz o disfarce da hora.

Responde ao silêncio,

onde estás tu, agora?

  • Autor: Ana Gonçalves (Pseudónimo (Offline Offline)
  • Publicado: 3 de setembro de 2026 00:39
  • Categoria: Reflexão
  • Visualizações: 3
  • Usuários favoritos deste poema: Michel F.M.


Para poder comentar e avaliar este poema, deve estar registrado. Registrar aqui ou se você já está registrado, login aqui.