Ana P. Gonçalves

Exílio de si

Desafio o teu passo a pisar onde exatamente estás,

sem o resto de ontem, sem a sede do além.

Apenas um dia de trégua e de paz,

amar este instante e nada mais.

 

Pois o amor não caduca, morre o menino velho,

pois, demanda coragem de ser amplidão,

é preciso ser grandioso ao traçar o destino,

sem medo da própria e sutil solidão.

 

Brota no peito quando a alma está só,

mas encontra seu fim no cansaço do mesmo nó,

quando o estar apartado parece melhor

e o silêncio sufoca o calor de uma voz.

 

Corre, então,  congela com pressa o segundo,

rabiscando de luz cada cena ao redor.

No reflexo da tela que encobre o teu mundo,

selfie-se quem puder ante o declínio maior.

 

Ser moldura do outro é perder o compasso,

quem é grande de fato aprende a faltar.

Não cabe em cabresto, não cabe em pedaço,

nem nega a si mesmo pra se enquadrar.

 

Entre essa pose fugaz e o instante do que existe,

o espelho pergunta o que resta afinal.

Se o passar destes anos em pressa consiste,

tua vida foi cena ou sopro real?

 

Olha em volta,

desfaz o disfarce da hora.

Responde ao silêncio,

onde estás tu, agora?