Três e quarenta da matina.
O córtex ainda recusa a trégua e vibra,
enquanto a mente busca o repouso que não vem.
Bastou um pestanejo rápido, ao músculo que desfibra
e só assim me faz acordar a sede oculta que me sustenta e me detém.
O sono é um desejo que a mente hoje adia,
desligar virou a fome de uma paz que não se rende.
Faz dias em que governo o anseio com fina covardia,
noutros, a febre escapa do peito e me transcende.
Nesse pequeno intervalo mudo, vi a construção do meu canto,
uma casa distante de tudo, em tons pastéis erguida em solo vivo,
onde os móveis de madeira guarda o tempo sem nenhuma aflição,
e o galo anuncia a terra sob um silêncio altivo.
Havia água limpa correndo em um riacho junto ao terreno,
plantas com raiz fincada, galinhas pelo quintal a ciscá-las,
e a rede estendida à sombra, longe do barulho e desespero,
esperando o corpo lento sem urgência de explicá-las.
Pela vidraça das janelas de vidro âmbar, entrava a claridade pura da matina,
fervendo o café espesso sobre os tijolos aquecido.
O fogão a lenha aceso expelia o medo para fora,
dando peso e contorno ao meu querer mais contido.
Desperto no sobressalto, mas não sinto vazio no espanto,
a insônia é o próprio atrito da vontade que quer ser.
Não durmo porque a vida exige o início desse recanto,
do meu sonhado canto,
a fumaça do fogão a lenha, o barro claro,
o sossego do isolamento, o contato com o solo, a natureza e o direito de renascer.
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Autor:
Ana Gonçalves (Pseudónimo (
Offline) - Publicado: 30 de agosto de 2026 04:01
- Categoria: Reflexão
- Visualizações: 11
- Usuários favoritos deste poema: Michel F.M., Avylla s. santosx

Offline)
Comentários2
Que interessante! A insônia deixa de ser uma patologia ou uma falha e passa a ser compreendida como um estado de lucidez:
Abraços
Obrigada, Samuel! Abraços!
Magnífica composição Ana!!!
Obrigada, Michel!!
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