Três e quarenta. O córtex ainda recusa a trégua e vibra,
enquanto a mente busca o repouso que não vem.
Bastou um pestanejo rápido, ao músculo que desfibra
e só assim me faz acordar a sede oculta que me sustenta e me detém.
O sono é um desejo que a mente hoje adia,
desligar virou a fome de uma paz que não se rende.
Faz dias em que governo o anseio com fina covardia,
noutros, a febre escapa do peito e me transcende.
Nesse pequeno intervalo mudo, vi a construção do meu chão,
uma casa distante de tudo, em tons pastéis erguida em solo vivo,
onde os móveis de madeira guarda o tempo sem nenhuma aflição,
e o galo anuncia a terra sob um silêncio altivo.
Havia água limpa correndo em um riacho junto ao terreiro,
plantas com raiz fincada, galinhas pelo terreno a ciscá-las,
e a rede estendida à sombra, longe do desespero,
esperando o corpo lento sem urgência de explicá-las.
Pela vidraça das janelas entrava a claridade pura da matina,
fervendo o café espesso sobre o tijolo aquecido.
O fogão a lenha aceso expelia o medo para fora,
dando peso e contorno ao meu querer mais contido.
Desperto no sobressalto, mas não sinto vazio no espanto,
a insônia é o próprio atrito da vontade que quer ser.
Não durmo porque a vida exige o chão desse recanto, do meu sonhado canto,
a fumaça do fogão a lenha, o barro claro,
o sossego do isolamento, o contato com o solo a natureza e o direito de renascer.