Ana Gonçalves

O nervo que pensa, vigília sem trégua 2

 

Três e quarenta. O córtex ainda recusa a trégua e vibra,

enquanto a mente busca o repouso que não vem.

Bastou um pestanejo rápido, ao músculo que desfibra

e só assim me faz acordar a sede oculta que me sustenta e me detém.

O sono é um desejo que a mente hoje adia,

desligar virou a fome de uma paz que não se rende. 

Faz dias em que governo o anseio com fina covardia,

noutros, a febre escapa do peito e me transcende.

Nesse pequeno intervalo mudo, vi a construção do meu chão,

uma casa distante de tudo, em tons pastéis erguida em solo vivo,

onde os móveis de madeira guarda o tempo sem nenhuma aflição,

e o galo anuncia a terra sob um silêncio altivo.

Havia  água limpa correndo em um riacho junto ao terreiro,

plantas com raiz fincada, galinhas pelo terreno a ciscá-las,

e a rede estendida à sombra, longe do desespero,

esperando o corpo lento sem urgência de explicá-las.

Pela vidraça das janelas entrava a claridade pura da matina,

fervendo o café espesso sobre o tijolo aquecido.

O fogão a lenha aceso expelia o medo para fora,

dando peso e contorno ao meu querer mais contido.

Desperto no sobressalto, mas não sinto vazio no espanto,

a insônia é o próprio atrito da vontade que quer ser.

Não durmo porque a vida exige o chão desse recanto, do meu sonhado canto,

a fumaça do fogão a lenha, o barro claro,

o sossego do isolamento, o contato com o solo a natureza e o direito de renascer.