A Ingenuidade Consente

Ayalah Verônica Berg

 

Na tarde que cai em conversa, 
alguma coisa em mim consente 
em não ser salva. 
 
O presente morde a própria boca — 
e ainda assim sorri, 
belo de tão inútil. 
A beleza é um prato 
que se come com os olhos abertos. 
 
Não me sirvo: 
a vida sabe ser doce 
como um veneno bem servido. 
 
Ídolos andam distraídos 
com a ferida que não fecha, 
e eu, que já amei o pior de mim, 
espero alguém que espere 
o que nem sei se conta. 
 
Há uma baba que escorre 
— não é loucura: 
é a fome antiga 
disfarçada de modos. 
A lucidez me custa o corpo 
— pago sorrindo. 
 
A boca seca pergunta 
se ainda há tempo 
para o amor ser apenas 
esta fome que não mente. 
 
O mundo, cansado de sentido, 
respira entre meus dentes. 
Não é a queda que importa: 
é o fingimento de cair bem. 
 
 
A Ingenuidade Consente 
 de Ayalah Verônica Berg 

 

  • Autor: Ayalah Berg (Pseudónimo (Offline Offline)
  • Publicado: 25 de agosto de 2026 12:48
  • Comentário do autor sobre o poema: E eu, ingênua, assopro as mãos vazias, tentando acender um fogo com as cinzas do que disse não ter fim. –Ayalah Berg
  • Categoria: Amor
  • Visualizações: 8
  • Usuários favoritos deste poema: Ayalah Verônica Berg, Azulando


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