Na tarde que cai em conversa,
alguma coisa em mim consente
em não ser salva.
O presente morde a própria boca —
e ainda assim sorri,
belo de tão inútil.
A beleza é um prato
que se come com os olhos abertos.
Não me sirvo:
a vida sabe ser doce
como um veneno bem servido.
Ídolos andam distraídos
com a ferida que não fecha,
e eu, que já amei o pior de mim,
espero alguém que espere
o que nem sei se conta.
Há uma baba que escorre
— não é loucura:
é a fome antiga
disfarçada de modos.
A lucidez me custa o corpo
— pago sorrindo.
A boca seca pergunta
se ainda há tempo
para o amor ser apenas
esta fome que não mente.
O mundo, cansado de sentido,
respira entre meus dentes.
Não é a queda que importa:
é o fingimento de cair bem.
A Ingenuidade Consente
de Ayalah Verônica Berg