Transmutação da carne

Ana Gonçalves

Ao espelho quebrado de ontem, já não me reconheço por inteiro,
pois trago no peito a mutação e a febre do carpinteiro,
que esculpe na própria carne a forma do seu devir.
Viver é rasgar a casca, sangrar a certeza e ruir.

Havia uma pedra no meio do meu peito, pesada e fatal,
mas essa pedra é apenas metáfora que o tempo transmuta em cristal.
Não somos estátua erguida na praça central,
somos o rio de Heráclito, turvo, rápido e profundo.

 

A sociedade nos quer acabados, com rótulo, molde e função,
mas o espírito anseia a forja para gerar nova constelação.
Na curva enigmática da alma, onde o inconsciente faz morada,
e ao ver minha sombra caminhando ao meu lado,
escuto um  zumbindo de que nunca estou sozinha.

Não há santidade sem culpa, nem luz sem o horror
de encarar os monstros que trago trancados querendo de mim transbordar.
É preciso descer ao subsolo, queimar o veneno e sentir a dor,
para que o homem cansado desperte em seu próprio fulgor.

 

Sinto o pulso silente da vida, um quase nada que é tudo,
o instante que nasce e devora o silêncio absoluto mudo desse mundo.
Não sou quem eu era há dez passos, nem quem serei amanhã de manhã,
a ideia de ser imutável é farsa, pretensa e vã.

Mas aceito, de qualquer forma,
o fogo que molda, a transmutação sem fim.
Mudar é uma poesia divina do monstro e do anjo em mim.
Se o precipício me olhar nos olhos, devolvo o olhar com coragem,
não sou o cais nem a terra, eu sou o motor da viagem.

  • Autor: Ana Gonçalves (Pseudónimo (Offline Offline)
  • Publicado: 23 de agosto de 2026 23:24
  • Categoria: Reflexão
  • Visualizações: 10
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