No espelho quebrado de ontem, já não me reconheço por inteiro,
pois trago no peito a mutação e a febre do carpinteiro
que esculpe na própria carne a forma do seu devir.
Viver é rasgar a casca, sangrar a certeza e ruir.
Havia uma pedra no meio do peito, pesada e fatal,
mas essa pedra é apenas matéria que o tempo transmuta em cristal.
Não somos estátua de mármore erguida na praça central,
somos o rio de Heráclito, turvo, rápido e profundo.
A sociedade nos quer acabados, com rótulo, molde e função,
mas o espírito anseia a forja para gerar nova constelação.
Na curva enigmática alma, onde o inconsciente faz morada,
e ao ver minha sombra caminhando ao meu lado,
escuto zumbindo de que nunca estou sozinha.
Não há santidade sem culpa, nem luz sem o horror de encarar os monstros que trago trancados querendo de mim transbordar.
É preciso descer ao subsolo, queimar o veneno e sentir a dor,
para que o homem cansado desperte em seu próprio fulgor.
Sinto o pulso silente da vida, um quase nada que é tudo,
o instante que nasce e devora o silêncio absoluto mudo desse mundo.
Não sou quem eu era há dez passos, nem quem serei amanhã de manhã,
a ideia de ser imutável é farsa, pretensa e vã.
Mas aceito o fogo que molda, a transmutação sem fim.
Mudar é uma poesia divina do monstro e do anjo em mim.
Se o precipicio me olhar nos olhos, devolvo o olhar com coragem,
não sou o cais nem a terra, eu sou o motor da viagem.
-
Autor:
Ana Gonçalves (Pseudónimo (
Offline) - Publicado: 23 de agosto de 2026 23:24
- Categoria: Reflexão
- Visualizações: 4
- Usuários favoritos deste poema: Michel F.M.

Offline)
Para poder comentar e avaliar este poema, deve estar registrado. Registrar aqui ou se você já está registrado, login aqui.