Anna Gonçalves

Transmutação da carne

No espelho quebrado de ontem, já não me reconheço por inteiro,

pois trago no peito a mutação e a febre do carpinteiro

que esculpe na própria carne a forma do seu devir.

Viver é rasgar a casca, sangrar a certeza e ruir.

 

Havia uma pedra no meio do peito, pesada e fatal,

mas essa pedra é apenas matéria que o tempo transmuta em cristal.

Não somos estátua de mármore erguida na praça central,

somos o rio de Heráclito, turvo, rápido e profundo.

 

A sociedade nos quer acabados, com rótulo, molde e função,

mas o espírito anseia a forja para gerar nova constelação.

Na curva enigmática alma, onde o inconsciente faz morada,

e ao ver minha sombra caminhando ao meu lado,

escuto  zumbindo de que nunca estou sozinha.

 

Não há santidade sem culpa, nem luz sem o horror de encarar os monstros que trago trancados querendo de mim transbordar.

É preciso descer ao subsolo, queimar o veneno e sentir a dor,

para que o homem cansado desperte em seu próprio fulgor.

 

Sinto o pulso silente da vida, um quase nada que é tudo,

o instante que nasce e devora o silêncio absoluto mudo desse mundo.

Não sou quem eu era há dez passos, nem quem serei amanhã de manhã,

a ideia de ser imutável é farsa, pretensa e vã.

 

Mas aceito o fogo que molda, a transmutação sem fim.

Mudar é uma poesia divina do monstro e do anjo em mim.

Se o precipicio me olhar nos olhos, devolvo o olhar com coragem,

não sou o cais nem a terra, eu sou o motor da viagem.