Ela despiu o hábito das horas.
A blusa — um soluço —
escorregou da cadeira.
Ninguém viu.
A porcelana no chão
não gemeu:
cintilou.
Cada caco, um dente de lua.
A tempestade chegou
com modos de amante atrasado.
A janela, escancarada,
deixou entrar o escuro
pelas frestas do vestido.
O raio riscou a parede
como assinatura de deus
no corpo errado.
Ela riu baixo,
com a boca cheia de vento,
e pensou:
Que estranho prazer
em não ser salva.
O trovão desabou
não do céu,
mas de dentro do peito —
um pulsar fora do lugar.
Lá fora, a terra
cheirava a segredo enxarcado.
O vento da manhã
puxava o ar
como um véu entre os dedos.
A outra murmurou:
— É o futuro.
Ela fechou os olhos.
O futuro tinha gosto de cura,
cheiro de homem apaixonado,
e nenhuma porta.
O ar rareava.
Não de medo —
de desejo infame.
O mundo
era uma fruta mordida
apodrecendo na varanda.
Sob o véu da escuridão
de Ayalah Verônica Berg
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Autor:
Ayalah Berg (Pseudónimo (
Offline) - Publicado: 23 de agosto de 2026 13:08
- Comentário do autor sobre o poema: Sou eu parada à janela, entre o vento e o silêncio, sorrindo sem pressa. –Verônica Berg
- Categoria: Não classificado
- Visualizações: 8
- Usuários favoritos deste poema: Francisco Queiroz

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