Ayalah Verônica Berg

Sob o véu da escuridão

 

Ela despiu o hábito das horas.  
A blusa — um soluço —  
escorregou da cadeira.  
Ninguém viu.  
 
A porcelana no chão  
não gemeu:  
cintilou.  
Cada caco, um dente de lua.  
 
A tempestade chegou  
com modos de amante atrasado.  
A janela, escancarada,  
deixou entrar o escuro  
pelas frestas do vestido.  
 
O raio riscou a parede  
como assinatura de deus  
no corpo errado.  
 
Ela riu baixo,  
com a boca cheia de vento,  
e pensou:  
Que estranho prazer  
em não ser salva.  
 
O trovão desabou  
não do céu,  
mas de dentro do peito —  
um pulsar fora do lugar.  
 
Lá fora, a terra  
cheirava a segredo enxarcado.  
O vento da manhã  
puxava o ar  
como um véu entre os dedos.  
 
A outra murmurou:  
— É o futuro.  
 
Ela fechou os olhos.  
O futuro tinha gosto de cura,  
cheiro de homem apaixonado,  
e nenhuma porta.  
 
O ar rareava.  
Não de medo —  
de desejo infame.  
 
O mundo  
era uma fruta mordida  
apodrecendo na varanda.
 
 
Sob o véu da escuridão 
 de Ayalah Verônica Berg