Ela:
Quero um contrato.
Não de papel de permanência.
Que você fique
onde eu possa te achar todo dia.
Ele:
Não posso.
Minha natureza é passagem.
Eu não moro. Atravesso.
— O que dura, em mim, não é o ficar.
— É o fundir.
Ela:
Então o que você promete?
Ele:
Fusão.
Ocupar cada fresta sua
até não haver fronteira
entre onde você termina
e onde meu apetite começa.
Ela:
Isso não é permanência.
Isso é consumir.
— O que dura, em mim, não é o ficar.
— É o afogar, se eu deixar.
Ele:
Mas seguro um dique.
Um controle fino, quase gentil,
que decide quanto de mim
cabe em você sem afundar.
Ela:
E se eu só quiser um pouco?
Na medida certa,
quando a sede pedir?
Ele:
Então você não quer a mim.
Quer minha utilidade.
— O que dura, em mim, não é o ficar.
— É o que sobra, quando você já bebeu o suficiente.
Não há mais fala.
Só o espaço entre os dois.
O contrato, não assinado.
O rio, sem decidir se fica ou seca.
Ela segura a caneta que não usou.
Ele segura o dique
que já não sabe o que segura.
Nenhum dos dois teve o que pediu:
ela, permanência.
Ele, licença para ser inteiro.
Ficam,
não por contrato,
não por fusão,
mas pela dúvida,
que, ao contrário deles,
não tem pressa nenhuma de terminar.
By Lunix.L

Offline)
Comentários3
Muito bem bolado esse poema
Parabéns!
Poema muito significativo e cativante. Parabéns!
Fico muito feliz que tenha gostado, poetisa. Abraços!
Um poema e tanto...
Abraços!
“A poesia só se completa quando encontra eco...“ Feliz que tenha ressoado em ti, poeta.
Abraços!
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