Lunix.L

ImpermanĂȘncia

Ela:

Quero um contrato.

Não de papel de permanência.

Que você fique

onde eu possa te achar todo dia.

 

Ele:

Não posso.

Minha natureza é passagem.

Eu não moro. Atravesso.

 

— O que dura, em mim, não é o ficar.

— É o fundir.

 

Ela:

Então o que você promete?

 

Ele:

Fusão.

Ocupar cada fresta sua

até não haver fronteira

entre onde você termina

e onde meu apetite começa.

 

Ela:

Isso não é permanência.

Isso é consumir.

 

— O que dura, em mim, não é o ficar.

— É o afogar, se eu deixar.

 

Ele:

Mas seguro um dique.

Um controle fino, quase gentil,

que decide quanto de mim

cabe em você sem afundar.

 

Ela:

E se eu só quiser um pouco?

Na medida certa,

quando a sede pedir?

 

Ele:

Então você não quer a mim.

Quer minha utilidade.

 

— O que dura, em mim, não é o ficar.

— É o que sobra, quando você já bebeu o suficiente.

 

Não há mais fala.

Só o espaço entre os dois.

 

O contrato, não assinado.

O rio, sem decidir se fica ou seca.

 

Ela segura a caneta que não usou.

Ele segura o dique

que já não sabe o que segura.

 

Nenhum dos dois teve o que pediu:

ela, permanência.

Ele, licença para ser inteiro.

 

Ficam, 

não por contrato,

não por fusão,

mas pela dúvida,

que, ao contrário deles,

não tem pressa nenhuma de terminar.

 

By Lunix.L