Onde repousa o coração
no caldo já morno da tarde,
feito de sonhos por vir,
com o rosto de um homem no medalhão
e a trepadeira azul
atrás da janela entreaberta?
Escutas uma crença absurda,
como se fossem eucaliptos ao vento,
e o ar se adensa nos cômodos.
Fomos tocadas por tua beleza injusta,
décadas de vida —
fala do jardim:
desse flutuar rente às flores,
enquanto eu choro
diante do reflexo embaçado.
Conta-me,
desse leve abandono do corpo.
Enquanto eu sonho,
vejo passar os que não se tornaram viúvos
e as que regressaram da prisão
com um silêncio novo na memória.
Tudo o que evitamos por acaso
alguém recebeu por inteiro,
sem pedir,
como um beijo que não merecia.
Por que ainda me inquieta este casamento
de gestos e de sombras?
— Não existe outra,
nem uma só?
Mas há noites em que o desejo
se deita ao lado da ausência
e quase sorri.
Caldo, quase eterno
de Ayalah Verônica Berg
-
Autor:
Ayalah Berg (Pseudónimo (
Offline) - Publicado: 20 de agosto de 2026 18:42
- Comentário do autor sobre o poema: Oh, vai, cruel infiel, entende: eu não sou Ayalah, não controlo tua febre. Beijei-te sete vezes — e, continuo sendo outra coisa: uma criatura de rosto angelical, cheia de fome, abismo, escuridão e um corpo que possui consciência separada e uma vontade destruidora própria. –Verônica Berg
- Categoria: Amor
- Visualizações: 4

Offline)
Comentários1
As rosas não falam, já ouviu? Acho que tem uma atmosfera semelhante, mas pode ser apenas coisa da minha cabeça...
Como sempre tá interessante, parabéns, Verônica
Música? Não conheço. Música brasileira nada sei... só o que meus irmãos escutavam: Cazuza, barão vermelho. Não lembro mais.
Caldo,... é uma poesia de 2025 em que exploro os abismos da alma: Ayalah e sua melancolia suave, um questionamento constante sobre o sentido das coisas, a passagem do tempo, as perdas e as desigualdades da vida. Versus a revolta e uma contemplação da ausência, dos desejos insatisfeitos de uma Verônica transgressora que vive em sabores hilstianos, hehe... este poema é mais um que veio do meu diário secreto, na verdade, faz parte da série do Anjo, que é sobre o meu casamento com um homem muito mais velho que eu e viúvo. Obrigada pela leitura, Francisco... e uma boa noite!
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