Caldo, quase eterno

Ayalah Verônica Berg

 

Onde repousa o coração
no caldo já morno da tarde,
feito de sonhos por vir,
com o rosto de um homem no medalhão
e a trepadeira azul
atrás da janela entreaberta?
 
Escutas uma crença absurda,
como se fossem eucaliptos ao vento,
e o ar se adensa nos cômodos.
Fomos tocadas por tua beleza injusta,
décadas de vida —
fala do jardim:
desse flutuar rente às flores,
enquanto eu choro
diante do reflexo embaçado.
 
Conta-me,
desse leve abandono do corpo.
Enquanto eu sonho,
vejo passar os que não se tornaram viúvos
e as que regressaram da prisão
com um silêncio novo na memória.
 
Tudo o que evitamos por acaso
alguém recebeu por inteiro,
sem pedir,
como um beijo que não merecia.
Por que ainda me inquieta este casamento
de gestos e de sombras?
— Não existe outra,
nem uma só?
Mas há noites em que o desejo
se deita ao lado da ausência
e quase sorri.
 
 
Caldo, quase eterno 
 de Ayalah Verônica Berg 

 

  • Autor: Ayalah Berg (Pseudónimo (Offline Offline)
  • Publicado: 20 de agosto de 2026 18:42
  • Comentário do autor sobre o poema: Oh, vai, cruel infiel, entende: eu não sou Ayalah, não controlo tua febre. Beijei-te sete vezes — e, continuo sendo outra coisa: uma criatura de rosto angelical, cheia de fome, abismo, escuridão e um corpo que possui consciência separada e uma vontade destruidora própria. –Verônica Berg
  • Categoria: Amor
  • Visualizações: 34
  • Usuários favoritos deste poema: Rogério


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