Onde repousa o coração
no caldo já morno da tarde,
feito de sonhos por vir,
com o rosto de um homem no medalhão
e a trepadeira azul
atrás da janela entreaberta?
Escutas uma crença absurda,
como se fossem eucaliptos ao vento,
e o ar se adensa nos cômodos.
Fomos tocadas por tua beleza injusta,
décadas de vida —
fala do jardim:
desse flutuar rente às flores,
enquanto eu choro
diante do reflexo embaçado.
Conta-me,
desse leve abandono do corpo.
Enquanto eu sonho,
vejo passar os que não se tornaram viúvos
e as que regressaram da prisão
com um silêncio novo na memória.
Tudo o que evitamos por acaso
alguém recebeu por inteiro,
sem pedir,
como um beijo que não merecia.
Por que ainda me inquieta este casamento
de gestos e de sombras?
— Não existe outra,
nem uma só?
Mas há noites em que o desejo
se deita ao lado da ausência
e quase sorri.
Caldo, quase eterno
de Ayalah Verônica Berg