São 06:30 da manhã,
observo a semelhança de um formigueiro.
Correm atrás de um relógio que não tem ponteiros,
numa pressa cega que devora os dias
antes mesmo que o sol ouse dar boas vindas.
Já não há tempo para a semente germinar no escuro,
querem o fruto antes da flor,
e a colheita antes da terra ser ferida pelo arado.
Desaprenderam a arte da espera.
As palavras, que antes rios profundos onde a alma dessedentava,
que agora viraram ruídos rasos,
frases sem corpo, contornos sem alma e nem acaso.
Não sabem ler o livro, nem interpretar um silêncio ou até uma poesia,
e mal suportam a instrução que exige raiz, cultivo e sabedoria.
Tem pressa de chegar a lugar nenhum,
correndo veloz para o abismo,
orgulhosos de não saberem escutar a voz do próprio peito.
Sabendo que o tempo é implacável cobrador.
Esquecem, na soberba da juventude que se consome em chamas rápidas,
que o espelho há de vergar as costas.
Amanhã, quando a noite pesar nos ombros cansados
e os passos se tornarem lentos e trêmulos,
vão mendigar a paciência de um olhar,
vão suplicar por alguém que lhes pegue a mão trêmula
e compreenda que a velhice é um inverno inevitável e que vem com o tempo.
Como esperarão ternura de quem nunca aprendeu a plantar?
Falta o sal da empatia, sobra o ferro da dureza.
Endureceram os corações, fecharam as janelas do peito,
e esqueceram-se de levantar os olhos para o alto, só vivem no desespero.
Há quanto tempo ninguém fita a lua no silêncio da noite?
Há quanto tempo deixaram de admirar o mistério do firmamento,
ocupados demais com as pequenas telas que lhes iluminam o rosto
mas lhes cobrem a alma de trevas?
Eu pertenço a esta mesma tribo de passos e caminhos apressados,
mas a minha alma, teimosa, recusa o ritmo da manada.
Enquanto eles correm para o nada,
eu escolho parar, escutar o vento,
e olhar a lua brilhar soberana e paciente,
lembrando que a beleza do mundo
ainda pertence aqueles que sabem esperar.
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Autor:
Ana Gonçalves (Pseudónimo (
Offline) - Publicado: 18 de agosto de 2026 02:34
- Categoria: Reflexão
- Visualizações: 2
- Usuários favoritos deste poema: Michel F.M.

Offline)
Comentários1
Belíssima composição!!
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