Ana Gonçalves

Os apressados do vazio que esqueceram de olhar para a Lua

São 06:30 da manhã,
observo a semelhança de um formigueiro.
Correm atrás de um relógio que não tem ponteiros,
numa pressa cega que devora os dias
antes mesmo que o sol ouse dar boas vindas.

Já não há tempo para a semente germinar no escuro,
querem o fruto antes da flor,
e a colheita antes da terra ser ferida pelo arado, 
e o processo de adubar o solo.

Desaprenderam a arte da espera.
As palavras, que antes rios profundos onde a alma dessedentava, 
que agora viraram ruídos de uma córrego raso,
frases sem corpo, contornos sem alma e nem acaso.

Não sabem ler o livro, nem interpretar um silêncio ou até uma poesia,
e mal suportam a instrução que exige raiz, cultivo e sabedoria.
Tem pressa de chegar a lugar nenhum,
correndo veloz para o fanatismo,
orgulhosos de não saberem escutar a voz do próprio peito.

Sabendo que o tempo é implacável cobrador.
Esquecem, na soberba da juventude que se consome em chamas rápidas,
que o espelho há de vergar as costas.
Amanhã, quando a noite pesar nos ombros cansados
e os passos se tornarem lentos e trêmulos,
vão mendigar a paciência de um olhar,
vão suplicar por alguém que lhes pegue a mão trêmula
e compreenda que a velhice é um inverno inevitável e que vem com o tempo.

Como esperarão ternura de quem nunca aprendeu a semear e plantar?
Falta o sal da empatia, sobra o ferro da dureza.
Endureceram os corações, fecharam as janelas do peito,
e esqueceram-se de levantar os olhos para o alto, só vivem no desespero.

Há quanto tempo ninguém fita a lua no silêncio da noite?
Há quanto tempo deixaram de admirar o mistério do firmamento,
ocupados demais com as pequenas telas que lhes iluminam o rosto
mas lhes cobrem a alma de trevas?

Eu pertenço a esta mesma tribo de passos e caminhos apressados,
mas a minha alma, teimosa, recusa o ritmo da manada.
Enquanto eles correm para o nada,
eu escolho parar, escutar o vento,
e olhar a lua brilhar soberana e paciente,
lembrando que a beleza do mundo
ainda pertence aqueles que sabem esperar.