No fundo do jardim esquecido,
onde a lua mal tocava a terra,
erguia-se um poço antigo,
guardião de uma promessa eterna.
A rendeira caminhava sozinha,
com o coração sangrando em silêncio.
As rosas negras inclinavam suas pétalas
como se reconhecessem sua dor.
Então o vento parou.
E uma presença surgiu atrás dela.
Não era homem, não era sombra —
era algo entre a memória e o espírito,
uma alma perdida entre dois mundos,
carregando séculos de saudade.
O cavalheiro apareceu na névoa,
pálido como a luz da madrugada.
Seus olhos traziam a tristeza
de quem já amou depois da morte.
— Eu esperei por ti —
sua voz atravessou a noite.
Ela sentiu um arrepio.
Não era medo.
Era reconhecimento.
Como se sua alma já soubesse
aquele rosto antes mesmo de encontrá-lo.
O poço começou a refletir imagens:
um antigo salão, velas apagadas,
um vestido branco abandonado
e duas mãos separadas pelo destino.
A rendeira chorou.
Uma lágrima caiu na água.
E o poço respondeu.
Ondas circularam sem que ninguém as tocasse,
e dezenas de pequenas luzes surgiram
sobre a superfície escura.
Eram espíritos.
Almas antigas, silenciosas,
observando aquele reencontro.
O cavalheiro aproximou-se.
Segurou o rosto dela entre as mãos
e, com a delicadeza de quem toca uma lembrança,
beijou seus lábios.
Foi um beijo lento, profundo,
como se atravessasse a vida e a morte.
Naquele instante,
o coração dela pareceu despertar.
O dele também.
E uma rosa vermelha nasceu
entre as pedras do poço.
As pétalas se abriram lentamente,
alimentadas não por sangue,
mas pelas lágrimas de duas almas
que haviam esperado tempo demais.
— Por que voltaste? — ela perguntou.
Ele respondeu:
— Porque há amores que a morte não consegue terminar.
O vento voltou a soprar.
As almas ao redor desapareceram uma a uma,
subindo como pequenas estrelas
para dentro da noite.
Mas o cavalheiro permaneceu.
Ela encostou a testa na dele.
E, junto ao poço escuro,
entre rosas e espíritos,
os dois compreenderam:
alguns encontros não pertencem à vida.
Pertencem à eternidade.
E naquela noite,
quando ninguém mais caminhava pelo jardim,
a rendeira e seu cavalheiro
continuaram abraçados,
enquanto duas sombras se uniam
sob o luar.
Dizem que, até hoje,
quando a meia-noite chega
e o vento passa pelas rosas,
é possível ouvir um beijo
vindo do fundo daquele poço.
E depois, muito baixinho,
uma voz sussurra:
“O amor morreu apenas uma vez.
Mas a alma nunca deixou de amar.”
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Autor:
Jullyne and Jully (Pseudónimo (
Offline) - Publicado: 17 de agosto de 2026 23:17
- Categoria: Não classificado
- Visualizações: 2
- Usuários favoritos deste poema: Michel F.M.
- Em coleções: POESIAS D\'Mundo.

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