julianahoffmannliska

O Beijo dos EspĂ­ritos

No fundo do jardim esquecido,
onde a lua mal tocava a terra,
erguia-se um poço antigo,
guardião de uma promessa eterna.

A rendeira caminhava sozinha,
com o coração sangrando em silêncio.
As rosas negras inclinavam suas pétalas
como se reconhecessem sua dor.

Então o vento parou.

E uma presença surgiu atrás dela.

Não era homem, não era sombra —
era algo entre a memória e o espírito,
uma alma perdida entre dois mundos,
carregando séculos de saudade.

O cavalheiro apareceu na névoa,
pálido como a luz da madrugada.
Seus olhos traziam a tristeza
de quem já amou depois da morte.

— Eu esperei por ti —
sua voz atravessou a noite.

Ela sentiu um arrepio.
Não era medo.

Era reconhecimento.

Como se sua alma já soubesse
aquele rosto antes mesmo de encontrá-lo.

O poço começou a refletir imagens:
um antigo salão, velas apagadas,
um vestido branco abandonado
e duas mãos separadas pelo destino.

A rendeira chorou.

Uma lágrima caiu na água.

E o poço respondeu.

Ondas circularam sem que ninguém as tocasse,
e dezenas de pequenas luzes surgiram
sobre a superfície escura.

Eram espíritos.

Almas antigas, silenciosas,
observando aquele reencontro.

O cavalheiro aproximou-se.

Segurou o rosto dela entre as mãos
e, com a delicadeza de quem toca uma lembrança,
beijou seus lábios.

Foi um beijo lento, profundo,
como se atravessasse a vida e a morte.

Naquele instante,
o coração dela pareceu despertar.

O dele também.

E uma rosa vermelha nasceu
entre as pedras do poço.

As pétalas se abriram lentamente,
alimentadas não por sangue,
mas pelas lágrimas de duas almas
que haviam esperado tempo demais.

— Por que voltaste? — ela perguntou.

Ele respondeu:

— Porque há amores que a morte não consegue terminar.

O vento voltou a soprar.

As almas ao redor desapareceram uma a uma,
subindo como pequenas estrelas
para dentro da noite.

Mas o cavalheiro permaneceu.

Ela encostou a testa na dele.

E, junto ao poço escuro,
entre rosas e espíritos,
os dois compreenderam:

alguns encontros não pertencem à vida.

Pertencem à eternidade.

E naquela noite,
quando ninguém mais caminhava pelo jardim,
a rendeira e seu cavalheiro
continuaram abraçados,
enquanto duas sombras se uniam
sob o luar.

Dizem que, até hoje,
quando a meia-noite chega
e o vento passa pelas rosas,
é possível ouvir um beijo
vindo do fundo daquele poço.

E depois, muito baixinho,
uma voz sussurra:

“O amor morreu apenas uma vez.
Mas a alma nunca deixou de amar.”