A carne pede sol
no quarto fechado.
Toda alegria é dívida
cobrada em silêncio.
Eu chego inteira
e já começo a ruir.
O instante morde a própria cauda
e chama isso de felicidade.
Vem, beija o abismo
como quem fecha uma porta
no meu pé descalço.
A esperança tem unhas compridas
e um vestido rasgado.
Deitar com o fogo
é acordar com gosto de cinza
na boca
e ainda assim querer mais.
Ao meio-dia
a noite escorre pelos vitrais
sem pedir licença.
O desejo é uma ferida limpa:
ácido, exato, cruel,
e arde
enquanto se acredita nela.
Viver fere
mas o corpo insiste
em sua sombra mínima.
O fim não é triste:
é prolongado.
Cinzas ao Meio-Dia
de Ayalah Verônica Berg
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Autor:
Ayalah Berg (Pseudónimo (
Offline) - Publicado: 17 de agosto de 2026 13:55
- Comentário do autor sobre o poema: Existem duas maneiras de salvá-lo do sofrimento: morte rápida e amor duradouro. –Friedrich Nietzsche
- Categoria: Amor
- Visualizações: 12
- Usuários favoritos deste poema: Rogério, Versos Discretos

Offline)
Comentários3
Muito top! Amei!
"Deitar com o fogo
é acordar com gosto de cinza
na boca
e ainda assim querer mais. "
A imagem do meio-dia onde a noite escorre pelos vitrais é de uma beleza plástica incrível. O poema tem a cor e o peso do desejo contido prestes a explodir.
É uma obra-prima de sensibilidade, intensidade e sofisticação literária.
Ayalah, você junta o desejo, a carne e a dor ('deitar com o fogo é acordar com gosto de cinza') tem uma intensidade que lembra muito a Hilda Hilst, já leu?
Abraços
Poxa, tu é um cara esperto, ano retrasado li a obra “Da Morte”, de Hilda Hilst. E hoje tenho muita influência dela na minha poesia. Francisco, é muito bom interagir contigo. Adorei teu comentário... inteligente.
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