Cinzas ao Meio-Dia

Ayalah Verônica Berg

 

A carne pede sol  
no quarto fechado.  
 
Toda alegria é dívida  
cobrada em silêncio.  
 
Eu chego inteira  
e já começo a ruir.  
 
O instante morde a própria cauda  
e chama isso de felicidade.  
 
Vem, beija o abismo  
como quem fecha uma porta  
no meu pé descalço.  
 
A esperança tem unhas compridas  
e um vestido rasgado.  
 
Deitar com o fogo 
é acordar com gosto de cinza  
na boca  
e ainda assim querer mais.  
 
Ao meio-dia  
a noite escorre pelos vitrais  
sem pedir licença.  
 
O desejo é uma ferida limpa:  
ácido, exato, cruel,
e arde  
enquanto se acredita nela.  

Viver fere  
mas o corpo insiste  
em sua sombra mínima.  

O fim não é triste:  
é prolongado.
 
 
Cinzas ao Meio-Dia 
 de Ayalah Verônica Berg 

 

  • Autor: Ayalah Berg (Pseudónimo (Offline Offline)
  • Publicado: 17 de agosto de 2026 13:55
  • Comentário do autor sobre o poema: Existem duas maneiras de salvá-lo do sofrimento: morte rápida e amor duradouro. –Friedrich Nietzsche
  • Categoria: Amor
  • Visualizações: 91
  • Usuários favoritos deste poema: Rogério, Versos Discretos, Michel F.M.


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