Ayalah VerĂ´nica Berg

Cinzas ao Meio-Dia

 

A carne pede sol  
no quarto fechado.  
 
Toda alegria é dívida  
cobrada em silêncio.  
 
Eu chego inteira  
e já começo a ruir.  
 
O instante morde a própria cauda  
e chama isso de felicidade.  
 
Vem, beija o abismo  
como quem fecha uma porta  
no meu pé descalço.  
 
A esperança tem unhas compridas  
e um vestido rasgado.  
 
Deitar com o fogo 
é acordar com gosto de cinza  
na boca  
e ainda assim querer mais.  
 
Ao meio-dia  
a noite escorre pelos vitrais  
sem pedir licença.  
 
O desejo é uma ferida limpa:  
ácido, exato, cruel,
e arde  
enquanto se acredita nela.  

Viver fere  
mas o corpo insiste  
em sua sombra mínima.  

O fim não é triste:  
é prolongado.
 
 
Cinzas ao Meio-Dia 
 de Ayalah Verônica Berg