É o primeiro clarão da manhã.
Chega em silêncio.
Não bate à porta,
não pergunta se pode entrar.
Acende a luz
diante de mim,
com a paciência
de quem já conhece
as perguntas
que não fiz.
Onde foi parar
o menino que corria
sem perguntar as horas?
O joelho ainda ardendo
do tombo na calçada,
o gosto de tamarindo
grudado nos dedos,
o pião cantando
até rachar o silêncio
de uma tarde de terça-feira
em que ninguém tinha pressa.
Ficou, quem sabe,
preso numa fotografia,
entre o muro e o sol
de algum quintal perdido,
onde a tarde descansava
depois do almoço.
Ou ainda atravessa,
correndo,
uma rua que o tempo
apagou do mapa,
gritando um nome
que ninguém mais atende.
Ou simplesmente dorme,
por fim quieto,
no abraço de alguém
que a memória, teimosa,
se recusa a soltar
mesmo quando tudo o mais
já foi solto.
Olho minhas mãos.
Há nelas
mais caminhos que idade.
Algumas linhas
parecem estradas
que nunca escolhi.
Outras chegam
a lugares onde fui feliz
sem saber que era felicidade.
O homem do espelho
também envelheceu.
Sob a luz da manhã,
os fios brancos na têmpora
contam um inverno
que ele carrega sem se queixar.
Mas ainda guarda
um pouco do meu espanto,
um resto de manhã nos olhos
e aquela antiga vontade
de recomeçar.
Ficamos frente a frente.
Tantos olhos,
tantos rastros,
e nenhum dos dois pergunta
quem chegou primeiro.
Desta vez,
não procuro no espelho
o tempo que passou.
E ele me reconhece.
Sorrimos —
dois homens que sabem
que o tempo não se vence,
apenas se atravessa.
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Autor:
Oswaldo Jesus Motta (
Offline) - Publicado: 15 de agosto de 2026 12:31
- Categoria: Reflexão
- Visualizações: 9

Offline)
Comentários1
Lindo! Lindo! Lindo!
Excelente final de semana!
Gratidão pelas palavras, poeta! Uma semana iluminada! Agradeço também pela visita! Abraços poéticos e volte sempre, por gentileza!
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