É o primeiro clarão da manhã.
Chega em silêncio.
Não bate à porta,
não pergunta se pode entrar.
Acende a luz
diante de mim,
com a paciência
de quem já conhece
as perguntas
que não fiz.
Onde foi parar
o menino que corria
sem perguntar as horas?
Jogava bola,
soltava pipa,
jogava bola de gude,
girava o pião de madeira
até o mundo ficar tonto.
Talvez tenha ficado
preso numa fotografia,
entre o muro e o sol
de algum quintal perdido,
onde a tarde descansava
depois do almoço.
Talvez ainda atravesse
uma rua que o tempo
apagou do mapa.
Talvez durma
no abraço de alguém
que a memória, teimosa,
ainda se recusa a perder.
Olho minhas mãos.
Há nelas
mais caminhos que idade.
Algumas linhas
parecem estradas
que nunca escolhi.
Outras chegam
a lugares onde fui feliz
sem saber que era felicidade.
O homem do espelho
também envelheceu.
Seus cabelos de neve
já não escondem
o inverno que chegou.
Ele ainda guarda
um pouco do meu espanto,
um resto de manhã nos olhos
e aquela antiga vontade
de recomeçar.
Ficamos frente a frente.
Tantos olhos,
tantos rastros,
e nenhum dos dois pergunta
quem chegou primeiro.
Desta vez,
não procuro no espelho
o tempo que passou.
E ele me reconhece.
Então sorrimos.
Não porque o tempo
tenha sido vencido,
mas porque, depois de tudo,
ainda há dois olhos
diante do mesmo espelho.
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Autor:
Oswaldo Jesus Motta (
Online) - Publicado: 15 de agosto de 2026 12:31
- Categoria: Reflexão
- Visualizações: 2

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