Oswaldo Jesus Motta

Rastros

É o primeiro clarão da manhã.

Chega em silêncio.

Não bate à porta,

não pergunta se pode entrar.

Acende a luz

diante de mim,

com a paciência

de quem já conhece

as perguntas

que não fiz.

Onde foi parar

o menino que corria

sem perguntar as horas?

Jogava bola,

soltava pipa,

jogava bola de gude,

girava o pião de madeira

até o mundo ficar tonto.

Talvez tenha ficado

preso numa fotografia,

entre o muro e o sol

de algum quintal perdido,

onde a tarde descansava

depois do almoço.

Talvez ainda atravesse

uma rua que o tempo

apagou do mapa.

Talvez durma

no abraço de alguém

que a memória, teimosa,

ainda se recusa a perder.

Olho minhas mãos.

Há nelas

mais caminhos que idade.

Algumas linhas

parecem estradas

que nunca escolhi.

Outras chegam

a lugares onde fui feliz

sem saber que era felicidade.

O homem do espelho

também envelheceu.

Seus cabelos de neve

já não escondem

o inverno que chegou.

Ele ainda guarda

um pouco do meu espanto,

um resto de manhã nos olhos

e aquela antiga vontade

de recomeçar.

Ficamos frente a frente.

Tantos olhos,

tantos rastros,

e nenhum dos dois pergunta

quem chegou primeiro.

Desta vez,

não procuro no espelho

o tempo que passou.

E ele me reconhece.

Então sorrimos.

Não porque o tempo

tenha sido vencido,

mas porque, depois de tudo,

ainda há dois olhos

diante do mesmo espelho.