Labirinto eterno das coisas que passam

Anna Gonçalves

Ao pisar os pés na minha cidade,

entre o que foi e o que não pôde ser,

não há balança justa que meça o peso do instante.

O que passou não pede perdão por ter sido,

apenas cobrou seu espaço naquilo que fui,

traçando o relevo exato de onde hoje respiro.

O impulso acende a brasa e cega os olhos

até que o tempo sopre a claridade da manhã.

O afeto chega como quem conhece o caminho,

encaixa-se por um instante, silencia,

desmancha-se no vento ou volta a bater na mesma porta,

em outro tempo, com outro nome.

Guardar-se preso nos calabouços do que já passou,

nas contas que a mente insiste em cobrar de si mesma,

é esquecer o tamanho do mundo.

A vida é grande demais para caber nas amarras do arrependimento,

entrelaçando infinitas estradas

entre o que o destino escolheu e o que deixamos para trás.

Ao voltar para o chão onde tudo começou,

os pingos de chuva traz o momento exato de quem eu costumava ser,

alguém que desenhava futuros no papel

e confundia a fúria passageira de uma chama

com a calmaria profunda de um sentimento inteiro.

Em seguida, meu  peito desacelera,

curva-se a boca num sorriso leve

para a história que precisou acontecer.

E fica apenas a certeza nua e crua

de que tudo passa,

salvo o silêncio do fim

e o mistério imenso de continuar existindo e fazer as coisas acontecerem.

 

  • Autor: Ana Gonçalves (Pseudónimo (Offline Offline)
  • Publicado: 15 de agosto de 2026 00:11
  • Categoria: Reflexão
  • Visualizações: 1


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