Ao pisar os pés na minha cidade,
entre o que foi e o que não pôde ser,
não há balança justa que meça o peso do instante.
O que passou não pede perdão por ter sido,
apenas cobrou seu espaço naquilo que fui,
traçando o relevo exato de onde hoje respiro.
O impulso acende a brasa e cega os olhos
até que o tempo sopre a claridade da manhã.
O afeto chega como quem conhece o caminho,
encaixa-se por um instante, silencia,
desmancha-se no vento ou volta a bater na mesma porta,
em outro tempo, com outro nome.
Guardar-se preso nos calabouços do que já passou,
nas contas que a mente insiste em cobrar de si mesma,
é esquecer o tamanho do mundo.
A vida é grande demais para caber nas amarras do arrependimento,
entrelaçando infinitas estradas
entre o que o destino escolheu e o que deixamos para trás.
Ao voltar para o chão onde tudo começou,
os pingos de chuva traz o momento exato de quem eu costumava ser,
alguém que desenhava futuros no papel
e confundia a fúria passageira de uma chama
com a calmaria profunda de um sentimento inteiro.
Em seguida, meu peito desacelera,
curva-se a boca num sorriso leve
para a história que precisou acontecer.
E fica apenas a certeza nua e crua
de que tudo passa,
salvo o silêncio do fim
e o mistério imenso de continuar existindo e fazer as coisas acontecerem.