Para amanhã, o despertador já está programado: 5h30.
A roupa já está separada. A chave, a carteira, o celular, tudo à vista.
A cada meia hora, tudo se cumpre em obediência à senhora rotina.
Tudo corre como esperado: até o atraso do ônibus está catalogado.
Chego sem sufoco e no horário. Começa a lida.
Há pausas para o café, a ida ao banheiro, o almoço, a água.
No meio do dia, uma parada desprogramada: um olhar para o infinito, procurando onde o tempo se esconde.
Volto ao trabalho, pois não há tempo para isso. Já é tempo de coisa séria no semblante, mas sem nenhuma importância essencial.
O movimento das pessoas apressadas indica que acabou o expediente.
A volta segue o cronograma: comprar a janta, limpar a casa, arrumar a roupa de amanhã, lavar a roupa de ontem.
Antes do relógio assentir ao meu repouso, penso em quebrá-lo para que não me acorde. Sinto-me revoltado com os ponteiros.
Que bom seria se não soubesse do passar, do meu passar pelo tempo...
Que bom seria se não tivéssemos batizado os dias da semana, quanto mais os meses. Que bom seria, que bom seria...
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Autor:
Francisco Queiroz (Pseudónimo (
Offline) - Publicado: 14 de agosto de 2026 12:41
- Comentário do autor sobre o poema: Uma meditação sobre o absurdo de batizar os dias para fingir que os controlamos. E se a ordem implacável da rotina for apenas uma forma elegante de esquecer que estamos passando?
- Categoria: Reflexão
- Visualizações: 18
- Em coleções: Silêncios, Urbano.

Offline)
Comentários2
Um poema para refletir o nosso dia a dia.
Gostei.
Boa noite, Francisco Queiroz!
Boa noite, Leide
Obrigado pela leitura e comentário.
Abraços
SERGIO NEVES - ...meu amigo...,...ao ler esse teu escrito me veio, de pronto, o que conta Francisco, o Buarque de Holanda, em sua mágica obra "Cotidiano"...,...se bem que eu não sei se o sentido que ele quis transmitir foi, intimamente, o de alguma qualquer "revolta" -não, acho que foi apenas o de "pintar" um quadro mostrando o quanto "autômatos" somos, mesmo quando singelos...,...agora, já tu lanças um olhar mais "rebelde" nessa toda "cotidianidade" que nos assola -pelos "batizados" dias afora...,...ficou tão interessante quanto a visão do Chico...,...uma pra lá de boa inspiração! ...gostei muito! /// Abçs.
Que elogio gigante! A referência ao meu xará me pegou de surpresa, pois o poema nasceu puramente do sentimento bruto contra essa engrenagem do tempo. Fico muito feliz que você tenha pescado justamente essa chama de revolta. É sempre um presente ter sua visita por aqui! Um abraço fraterno, Sergio.
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