A Sombra do Verbo

Versos Discretos

 

Há um tremor que não vem da sintaxe,
mas do peso do teu olhar
ancorado no meu pulso.
Tu não moves um fio de cabelo,
mas a tua imobilidade me devora:
é o teu olhar que dita a velocidade do traço,
que estica este músculo,
que faz a tinta subir fria pela haste e descer quente sobre a folha.


A respiração encurta no meio do período.
Escrevo com a mão que te deseja,
guiado apenas pelo atrito,
pela cadence quase cega 
deste corpo que se desenha sozinho
para a tua fruição.


Quanto mais te calas,
mais a carne exige a rima,
mais o gesto se torna urgente,
um galope contido no limite da margem,
a rasgar o papel que nos separa.
Sei que a tua vigília não é neutra.


Há uma vertigem no teu colo,
um sobressalto sutil na curva do teu pescoço
que denuncia a cumplicidade do mistério.
Eu me desfaço para que me vejas,
e a cada movimento,  ritmo, suor, 
pausa, sinto a tua tensão crescer até fechar o espaço.


A lâmina da tua paciência finalmente cede.
Desertas a condição de estátua.
Não és mais a testemunha que contempla:
sinto os teus dedos frios invadirem a quentura do meu pulso,
tomando a pena da minha mão,interrompendo a metáfora
para que o poema, enfim, se cumpra na pele.

  • Autor: Versos Discretos (Offline Offline)
  • Publicado: 14 de agosto de 2026 08:27
  • Categoria: Erótico
  • Visualizações: 4
Comentários +

Comentários1

  • Ayalah Verônica Berg

    Belo, lindo, uau...
    Parabéns, chegou a faltar o ar, lendo... hehe.



Para poder comentar e avaliar este poema, deve estar registrado. Registrar aqui ou se você já está registrado, login aqui.