Há um tremor que não vem da sintaxe,
mas do peso do teu olhar
ancorado no meu pulso.
Tu não moves um fio de cabelo,
mas a tua imobilidade me devora:
é o teu olhar que dita a velocidade do traço,
que estica este músculo,
que faz a tinta subir fria pela haste e descer quente sobre a folha.
A respiração encurta no meio do período.
Escrevo com a mão que te deseja,
guiado apenas pelo atrito,
pela cadence quase cega
deste corpo que se desenha sozinho
para a tua fruição.
Quanto mais te calas,
mais a carne exige a rima,
mais o gesto se torna urgente,
um galope contido no limite da margem,
a rasgar o papel que nos separa.
Sei que a tua vigília não é neutra.
Há uma vertigem no teu colo,
um sobressalto sutil na curva do teu pescoço
que denuncia a cumplicidade do mistério.
Eu me desfaço para que me vejas,
e a cada movimento, ritmo, suor,
pausa, sinto a tua tensão crescer até fechar o espaço.
A lâmina da tua paciência finalmente cede.
Desertas a condição de estátua.
Não és mais a testemunha que contempla:
sinto os teus dedos frios invadirem a quentura do meu pulso,
tomando a pena da minha mão,interrompendo a metáfora
para que o poema, enfim, se cumpra na pele.
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Autor:
Versos Discretos (
Offline) - Publicado: 14 de agosto de 2026 08:27
- Categoria: Erótico
- Visualizações: 15
- Usuários favoritos deste poema: Vilma Oliveira

Offline)
Comentários2
Boa noite poeta! A escrita e o corpo se misturam; a tinta, a haste, o traço e a margem funcionam tanto como instrumentos da poesia quanto como extensões do desejo físico. O silêncio e a quietude do outro não são passivos (tua vigília não é neutra); eles devoram, ditam o ritmo e acumulam uma eletricidade estática que acelera os batimentos e a urgência do poeta. A escrita é vista inicialmente como uma barreira (o papel que nos separa, uma tentativa de conter em palavras o galope do desejo. No desfecho, a barreira estética se rompe quando a estátua ganha vida; o poema cessa como metáfora literal para se transformar em um acontecimento físico, cumprindo-se diretamente na pele. É uma obra visceral, onde a poesia não é apenas um registro do desejo, mas o próprio veículo de sedução que atrai o outro para fora da contemplação e para dentro do toque. Parabéns pelo poema! Meu abraço poético.
O Poema se torna um ato físico e visceral "mão que te deseja", "ritmo, suor, pausa", o desejo da carne e pelo atrito de se expor para a apreciação do outro. No clímax, a testemunha abandona a imobilidade. Em suma, é o relato de uma metamorfose. SZ
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