Há um tremor que não vem da sintaxe,
mas do peso do teu olhar
ancorado no meu pulso.
Tu não moves um fio de cabelo,
mas a tua imobilidade me devora:
é o teu olhar que dita a velocidade do traço,
que estica este músculo,
que faz a tinta subir fria pela haste e descer quente sobre a folha.
A respiração encurta no meio do período.
Escrevo com a mão que te deseja,
guiado apenas pelo atrito,
pela cadence quase cega
deste corpo que se desenha sozinho
para a tua fruição.
Quanto mais te calas,
mais a carne exige a rima,
mais o gesto se torna urgente,
um galope contido no limite da margem,
a rasgar o papel que nos separa.
Sei que a tua vigília não é neutra.
Há uma vertigem no teu colo,
um sobressalto sutil na curva do teu pescoço
que denuncia a cumplicidade do mistério.
Eu me desfaço para que me vejas,
e a cada movimento, ritmo, suor,
pausa, sinto a tua tensão crescer até fechar o espaço.
A lâmina da tua paciência finalmente cede.
Desertas a condição de estátua.
Não és mais a testemunha que contempla:
sinto os teus dedos frios invadirem a quentura do meu pulso,
tomando a pena da minha mão,interrompendo a metáfora
para que o poema, enfim, se cumpra na pele.