Certos dias e noites tem uma sincronia especial para acontecer.
O Sol, por um instante, entrega sua coroa à sombra.
A Lua está nova, escondida no próprio nascimento.
e seis mundos, separados por abismos que a mente humana mal consegue imaginar,
desenhando sobre a eclíptica uma arquitetura silenciosa.
Não estão realmente lado a lado.
É a Terra que, em sua pequena varanda azul,
encontra esse desenho no céu.
E nós que passamos a vida procurando figuras no infinito.
Damos nomes às constelações.
Inventamos deuses para o trovão.
Guardamos histórias nas estrelas.
Tentamos decifrar o que está acima
porque ainda não aprendemos a decifrar completamente
o que acontece aqui embaixo e aqui dentro.
E enquanto os astros seguem suas órbitas antigas,
a Terra atravessa uma época estranha.
O fogo corre por cidades e florestas.
O vento muda de temperamento e leva tudo o que está em seu caminho.
A água invade cidades,
desce montanhas,
abre caminhos onde fizemos nossas estradas.
O chão treme e se abre como se quisesse chacoalhar quem está sob sua superfície.
E, em algum lugar, um animal procura comida e um lar que já não existe.
Em outro, alguém olha para o céu
sem saber se amanhã ainda encontrará sua casa.
E há uma tempestade que não aparece nos mapas,
aquela que se instalou na consciência humana.
Mentiras viajam mais depressa que a verdade.
O medo encontra multidões.
A ganância aprende novos nomes.
E há quem queira transformar a própria escuridão
em destino para todos.
Mas olhe outra vez para o alto.
O céu não está em guerra.
Saturno não precisa destruir Júpiter para existir.
Uma estrela não diminui porque outra nasceu.
Os mundos não precisam ser iguais
para pertencerem à mesma dança.
Talvez esta seja a parte que esquecemos.
E então, quando a madrugada se aprofundar,
os restos do antigo Swift-Tuttle
começarão a atravessar a atmosfera.
Pedras viajantes.
Memórias de gelo e poeira
guardadas por um cometa durante séculos.
Por alguns segundos,
arderão acima de nossas cabeças
como pequenas assinaturas do tempo.
Chamaremos de Perseidas.
E talvez alguém faça um pedido.
Eu preferiria que, nesta noite,
fizéssemos uma pergunta.
O que ainda podemos salvar?
Uma nascente.
Um ecossistema.
Um Bioma.
Uma espécie que ninguém conhece.
Ou talvez alguma parte de nós mesmos
que ficou esquecida
no caminho até aqui.
Porque o eclipse passará.
A Lua voltará a crescer.
Os planetas continuarão sua peregrinação.
Os meteoros desaparecerão antes de tocar o chão.
E a manhã, indiferente e magnífica,
abrirá novamente suas portas.
Mas nós teremos visto.
E depois de realmente ver alguma coisa,
há uma responsabilidade silenciosa:
não voltar a olhar da mesma maneira.
E o verdadeiro encanto desta noite,
não um sinal vindo do céu.
Mas o céu devolvendo aos nossos olhos
a capacidade de se maravilhar.
E, por um instante,
lembrando à espécie que inventou tantas maneiras de dominar o mundo
que talvez sua tarefa mais antiga,
mais difícil
e mais bonita
seja simplesmente
aprender a pertencer a ele.
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Autor:
Amanda S. Moraes (
Offline) - Publicado: 12 de agosto de 2026 16:53
- Categoria: Não classificado
- Visualizações: 2

Offline)
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