Amanda S. Moraes

Sincronia especial

Certos dias e noites tem uma sincronia especial para acontecer.

O Sol, por um instante, entrega sua coroa à sombra.

A Lua está nova, escondida no próprio nascimento.

e seis mundos, separados por abismos que a mente humana mal consegue imaginar,

desenhando sobre a eclíptica uma arquitetura silenciosa.

Não estão realmente lado a lado.

É a Terra que, em sua pequena varanda azul,

encontra esse desenho no céu.

E nós que passamos a vida procurando figuras no infinito.

Damos nomes às constelações.

Inventamos deuses para o trovão.

Guardamos histórias nas estrelas.

Tentamos decifrar o que está acima

porque ainda não aprendemos a decifrar completamente

o que acontece aqui embaixo e aqui dentro. 

 

E enquanto os astros seguem suas órbitas antigas,

a Terra atravessa uma época estranha.

O fogo corre por cidades e florestas.

O vento muda de temperamento e leva tudo o que está em seu caminho.

A água invade cidades,

desce montanhas,

abre caminhos onde fizemos nossas estradas.

O chão treme e se abre como se quisesse chacoalhar quem está sob sua superfície. 

E, em algum lugar, um animal procura comida e um lar que já não existe.

Em outro, alguém olha para o céu

sem saber se amanhã ainda encontrará sua casa.

E há uma tempestade que não aparece nos mapas,

aquela que se instalou na consciência humana.

Mentiras viajam mais depressa que a verdade.

O medo encontra multidões.

A ganância aprende novos nomes.

E há quem queira transformar a própria escuridão

em destino para todos.

Mas olhe outra vez para o alto.

O céu não está em guerra.

Saturno não precisa destruir Júpiter para existir.

Uma estrela não diminui porque outra nasceu.

Os mundos não precisam ser iguais

para pertencerem à mesma dança.

Talvez esta seja a parte que esquecemos.

E então, quando a madrugada se aprofundar,

os restos do antigo Swift-Tuttle

começarão a atravessar a atmosfera.

Pedras viajantes.

Memórias de gelo e poeira

guardadas por um cometa durante séculos.

Por alguns segundos,

arderão acima de nossas cabeças

como pequenas assinaturas do tempo.

Chamaremos de Perseidas.

E talvez alguém faça um pedido.

Eu preferiria que, nesta noite,

fizéssemos uma pergunta.

O que ainda podemos salvar?

Uma nascente.

Um ecossistema.

Um Bioma.

Uma espécie que ninguém conhece.

Ou talvez alguma parte de nós mesmos

que ficou esquecida

no caminho até aqui.

 

Porque o eclipse passará.

 

A Lua voltará a crescer.

 

Os planetas continuarão sua peregrinação.

 

Os meteoros desaparecerão antes de tocar o chão.

 

E a manhã, indiferente e magnífica,

abrirá novamente suas portas.

 

Mas nós teremos visto.

 

E depois de realmente ver alguma coisa,

há uma responsabilidade silenciosa:

 

não voltar a olhar da mesma maneira.

 

E o verdadeiro encanto desta noite,

não um sinal vindo do céu.

 

Mas o céu devolvendo aos nossos olhos

a capacidade de se maravilhar.

 

E, por um instante,

 

lembrando à espécie que inventou tantas maneiras de dominar o mundo

 

que talvez sua tarefa mais antiga,

mais difícil

e mais bonita

 

seja simplesmente

 

aprender a pertencer a ele.