Poema: Cálice, Meu Coração, Devo-me Conter a Língua!
Seguro o cálice com as duas mãos
não por fé, mas por medo
de que ele transborde em palavra.
Dentro dele o vinho é grosso
é sangue, é grito, é nome que não reza.
E eu bebo calado.
O meu coração bate no metal
um tambor que a igreja escuta.
Ele quer confissão, quer briga, quer rua.
Quer dizer "isso aqui está podre"
quer cuspir o amargo do mundo
na hóstia branca do silêncio.
Devo-me conter a língua
porque língua é fogo e povo.
Porque se eu falar, a taça trinca.
Porque se eu falar, me excomungam
do trabalho, da mesa, da noite.
Então engulo o vinho e o grito
e deixo o cálice quente
queimar a palma
sem fazer barulho.
É esse o sacrifício:
não oferecer o sangue,
mas oferecer o dente
mordendo a própria fala.
Até que o cálice fique vazio
e eu ainda tenha sede.
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Autor:
GINO (Pseudónimo (
Offline) - Publicado: 6 de agosto de 2026 15:22
- Categoria: Reflexão
- Visualizações: 8
- Usuários favoritos deste poema: Vilma Oliveira

Offline)
Comentários1
Boa noite poeta! O cálice e o vinho não representam a fé sagrada. Eles simbolizam o medo, o sangue dos oprimidos e a dor acumulada que o eu lírico é forçado a engolir (E eu bebo calado). O coração é descrito como um tambor que ecoa. Ele anseia pela rua, pelo confronto e pela denúncia da podridão do mundo, contrastando com a passividade exigida pela igreja (que atua como a instituição censuradora). A palavra é vista como uma força coletiva e destrutiva (língua é fogo e povo). Falar significa quebrar o pacto do silêncio e sofrer o castigo social da excomunhão, que se traduz na perda do trabalho e do convívio. O fechamento traz uma ironia dolorosa. O verdadeiro sacrifício não é a entrega divina, mas a automutilação do silêncio (oferecer o dente mordendo a própria fala). O eu lírico termina vazio, mas ainda sedento por justiça e expressão. O poema dialoga diretamente com a tradição da poesia de resistência (lembrando a famosa canção Cálice), de Chico Buarque e Gilberto Gil, mantendo uma força atemporal sobre o custo humano de se calar diante das injustiças. Parabéns pelo poema! Meu abraço poético.
Muitíssimo obrigado pela pela análise do poema, sempre está aberto para as análises, o duplo sentido de cálice nos impactam! Valeu, poetisa! Abraço fraterno!
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