Gino, Sinvaldo de Souza

Poema: Cálice, Meu Coração, Devo-me Conter a Língua

Poema: Cálice, Meu Coração, Devo-me Conter a Língua!

Seguro o cálice com as duas mãos  
não por fé, mas por medo  
de que ele transborde em palavra.  
Dentro dele o vinho é grosso  
é sangue, é grito, é nome que não reza.  
E eu bebo calado.

O meu coração bate no metal  
um tambor que a igreja escuta.  
Ele quer confissão, quer briga, quer rua.  
Quer dizer \"isso aqui está podre\"  
quer cuspir o amargo do mundo  
na hóstia branca do silêncio.

Devo-me conter a língua  
porque língua é fogo e povo.  
Porque se eu falar, a taça trinca.  
Porque se eu falar, me excomungam  
do trabalho, da mesa, da noite.  
Então engulo o vinho e o grito  
e deixo o cálice quente  
queimar a palma  
sem fazer barulho.

É esse o sacrifício:  
não oferecer o sangue,  
mas oferecer o dente  
mordendo a própria fala.  
Até que o cálice fique vazio  
e eu ainda tenha sede.