Poema: Cálice, Meu Coração, Devo-me Conter a Língua!
Seguro o cálice com as duas mãos
não por fé, mas por medo
de que ele transborde em palavra.
Dentro dele o vinho é grosso
é sangue, é grito, é nome que não reza.
E eu bebo calado.
O meu coração bate no metal
um tambor que a igreja escuta.
Ele quer confissão, quer briga, quer rua.
Quer dizer \"isso aqui está podre\"
quer cuspir o amargo do mundo
na hóstia branca do silêncio.
Devo-me conter a língua
porque língua é fogo e povo.
Porque se eu falar, a taça trinca.
Porque se eu falar, me excomungam
do trabalho, da mesa, da noite.
Então engulo o vinho e o grito
e deixo o cálice quente
queimar a palma
sem fazer barulho.
É esse o sacrifício:
não oferecer o sangue,
mas oferecer o dente
mordendo a própria fala.
Até que o cálice fique vazio
e eu ainda tenha sede.