Os relógios há muito esqueceram como cantar.
Agora apenas moem a ferrugem dentro dos meus ossos,
enquanto cada amanhecer chega como uma dívida antiga
e cada entardecer dobra mais um ano sobre a minha pele.
A solidão não é um quarto.
É um ferreiro paciente,
forjando o silêncio em correntes,
ensinando o coração a envelhecer antes do corpo.
Acordo apenas para adiar o amanhã.
Toda promessa é riscada antes mesmo de respirar;
tornei-me um colecionador cuidadoso
de manhãs inacabadas.
Minha alma permanece pendurada sob o tempo
como um lampião abandonado,
cuja luz não se apaga de uma vez,
mas descasca lentamente,
como o ferro que aprende a aceitar a ferrugem.
As estações já não batem à minha janela.
Passam como estranhas
que um dia souberam o meu nome
e escolheram a misericórdia do esquecimento.
Se ainda existe esperança,
ela aprendeu a sussurrar de outro século.
Não consigo ouvi-la acima da lenta corrosão
das horas alimentando-se do meu peito.
E assim permaneço —
nem vivendo, nem morrendo,
apenas assistindo ao tempo oxidar, pacientemente,
os últimos cantos luminosos de uma alma solitária,
enquanto todas as noites
cancelo o amanhã com delicadeza,
como se o futuro fosse uma carta
que jamais tivesse sido escrita para mim.
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Autor:
enitnatsnoC oãoJ (
Offline) - Publicado: 1 de agosto de 2026 15:08
- Comentário do autor sobre o poema: até um Homem de ferro enferruja
- Categoria: Carta
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Offline)
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