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O relógio

Os relógios há muito esqueceram como cantar.

Agora apenas moem a ferrugem dentro dos meus ossos,

enquanto cada amanhecer chega como uma dívida antiga

e cada entardecer dobra mais um ano sobre a minha pele.

A solidão não é um quarto.

É um ferreiro paciente,

forjando o silêncio em correntes,

ensinando o coração a envelhecer antes do corpo.

Acordo apenas para adiar o amanhã.

Toda promessa é riscada antes mesmo de respirar;

tornei-me um colecionador cuidadoso

de manhãs inacabadas.

Minha alma permanece pendurada sob o tempo

como um lampião abandonado,

cuja luz não se apaga de uma vez,

mas descasca lentamente,

como o ferro que aprende a aceitar a ferrugem.

As estações já não batem à minha janela.

Passam como estranhas

que um dia souberam o meu nome

e escolheram a misericórdia do esquecimento.

Se ainda existe esperança,

ela aprendeu a sussurrar de outro século.

Não consigo ouvi-la acima da lenta corrosão

das horas alimentando-se do meu peito.

E assim permaneço —

nem vivendo, nem morrendo,

apenas assistindo ao tempo oxidar, pacientemente,

os últimos cantos luminosos de uma alma solitária,

enquanto todas as noites

cancelo o amanhã com delicadeza,

como se o futuro fosse uma carta

que jamais tivesse sido escrita para mim.