Prova o instante.
A lagosta é doce,
o vinho, rubro e frio.
Sentes? Já foi.
Não confies na noite
que te serve o bolo.
O antecessor sorria
e jaz sob os lírios.
Evita a herança,
o nome traçado a giz
no rol dos esquecidos.
Não sejas lápide.
Contorna a loucura
com mãos de veludo,
pratos exatos,
néctar medido.
Mas que vazio
o dessa precisão.
Desperta, então, a besta.
Aquela que te beija
com língua de vertigem
e te suspende
entre o êxtase e a vida.
Chama-a pelo nome –
ela dormia, tão mansa,
no fosso do teu peito
entre rendas sujas
e ossos de pássaro.
Ergue-a. Ri com ela.
És finalmente o dono
da tua própria ruína.
Agora, basta.
O prato esvazia,
as taças guardam
apenas o racho do brinde.
Um lustre oscila.
Era o vento
ou o primeiro passo da queda?
Já não importa.
Tudo o que amaste
será breve vertigem
sem poente.
Ainda assim — tão bela.
Banquete frio
de Ayalah Verônica Berg
-
Autor:
Ayalah Berg (Pseudónimo (
Offline) - Publicado: 30 de julho de 2026 11:58
- Comentário do autor sobre o poema: Este poema, "Banquete Frio", soa como um aviso de maldição... uma sequência de "o inferno sou eu". O que não é mentira, mas talvez seja também uma declaração de amor, meu eterno amor... hehe.
- Categoria: Não classificado
- Visualizações: 7
- Usuários favoritos deste poema: Rogério, Heloo

Offline)
Comentários2
Uso de imagens poderosas, que transforma o efêmero em um banquete filosófico sobre desejo, risco e finitude. A beleza está justamente na tensão entre o controle e o abismo, conduzindo o leitor a um desfecho inevitável e, ainda assim, profundamente belo.
Escrita excepcional!! Parabéns!!
Para poder comentar e avaliar este poema, deve estar registrado. Registrar aqui ou se você já está registrado, login aqui.