Prova o instante.
A lagosta é doce,
o vinho, rubro e frio.
Sentes? Já foi.
Não confies na noite
que te serve o bolo.
O antecessor sorria
e jaz sob os lírios.
Evita a herança,
o nome traçado a giz
no rol dos esquecidos.
Não sejas lápide.
Contorna a loucura
com mãos de veludo,
pratos exatos,
néctar medido.
Mas que vazio
o dessa precisão.
Desperta, então, a besta.
Aquela que te beija
com língua de vertigem
e te suspende
entre o êxtase e a vida.
Chama-a pelo nome –
ela dormia, tão mansa,
no fosso do teu peito
entre rendas sujas
e ossos de pássaro.
Ergue-a. Ri com ela.
És finalmente o dono
da tua própria ruína.
Agora, basta.
O prato esvazia,
as taças guardam
apenas o racho do brinde.
Um lustre oscila.
Era o vento
ou o primeiro passo da queda?
Já não importa.
Tudo o que amaste
será breve vertigem
sem poente.
Ainda assim — tão bela.
Banquete frio
de Ayalah Verônica Berg