PEIXE
(e outras formas de nadar em silêncio)
Todo santo dia ela desce pra se banhar.
Caminha pelas bordas
com a leveza de quem nunca caiu.
E eu, aqui embaixo, no fundo
nado contra o que não muda,
invento milagre do que só é promessa.
A carne? essa prisão:
falha, suada, latejante,
sangrando desejos que não se calam.
Mas ela me mantém vivo, me prende, me corroi.
A alma ? essa que se põe num pedestal,
perfeita demais, Virtuosa cheia de mérito,
Mas inexistente demais, dançando nas bordas do mar como um sonho que não posso tocar.
Às vezes, quero transcender
submergir,abraçar a carne até o fim,
sentir a brutalidade do corpo
antes que a alma se vá
ou se transforme em silêncio.
Mas tocar a vida, exige permutas,
e lutas que rasgam por dentro,o desejo bruto da carne,essa moura pagã, contra a pureza implacável da alma.
Tem dias que eu só queria ser aquário
um vidro translúcido, preso, seguro, visível,
sem essa guerra que me queima.
Mas a alma não me vê. Nem desconfia.
Não sabe que eu grito, que me parto,
que sangro entre promessas não cumpridas
e urros que ninguém ouve.
Se ao menos essa alma entendesse a carne:
falha, errada, suada, viva
não fosse esse delírio que se inventam
pra existir...
...eu quebraria as correntezas,
abriria as ondas, vazaria na maré
e escaparia desse aquário que afoga devagar.
Preso.
Num lugar onde só
eu respiro, Ainda vivo.
Mas às vezes, sim, eu saio da redoma.
Eu quebro o vidro e ninguém percebe
que sou peixe. Com o corpo em chamas
e o coração d’água. Que morde o vidro,
come os sonhos e carrega dentro da boca
Um mar.
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Autor:
C.araujo (Pseudónimo (
Offline) - Publicado: 30 de julho de 2026 00:19
- Categoria: Não classificado
- Visualizações: 2

Offline)
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