Charles Araújo

PEIXE

PEIXE

 

(e outras formas de nadar em silêncio)

 

Todo santo dia ela desce pra se banhar.

Caminha pelas bordas

com a leveza de quem nunca caiu.

E eu, aqui embaixo, no fundo 

nado contra o que não muda,

invento milagre do que só é promessa.

 

A carne? essa prisão:

falha, suada, latejante,

sangrando desejos que não se calam.

Mas ela me mantém vivo, me prende, me corroi.

 

A alma ? essa que se põe num pedestal,

perfeita demais, Virtuosa cheia de mérito,

Mas inexistente demais, dançando nas bordas do mar como um sonho que não posso tocar.

 

Às vezes, quero transcender 

submergir,abraçar a carne até o fim,

sentir a brutalidade do corpo

antes que a alma se vá

ou se transforme em silêncio.

 

Mas tocar a vida, exige permutas,

e lutas que rasgam por dentro,o desejo bruto da carne,essa moura pagã, contra a pureza implacável da alma.

 

Tem dias que eu só queria ser aquário 

um vidro translúcido, preso, seguro, visível,

sem essa guerra que me queima.

 

Mas a alma não me vê. Nem desconfia.

Não sabe que eu grito, que me parto,

que sangro entre promessas não cumpridas

e urros que ninguém ouve.

 

Se ao menos essa alma entendesse a carne:

falha, errada, suada, viva 

não fosse esse delírio que se inventam

pra existir...

...eu quebraria as correntezas,

abriria as ondas, vazaria na maré

e escaparia desse aquário que afoga devagar.

 

Preso.

Num lugar onde só

eu respiro, Ainda vivo.

 

Mas às vezes, sim, eu saio da redoma.

Eu quebro o vidro e ninguém percebe

que sou peixe. Com o corpo em chamas

e o coração d’água. Que morde o vidro,

come os sonhos e carrega dentro da boca

Um mar.