Quando o Frio Aprende o meu Nome

enitnatsnoC oãoJ

A Catedral Erguida das Cinzas

 

por João Constantine

 

Tomei emprestado meu nome da chuva,

pois a pedra se lembra menos do que a dor.

Cada rua que atravessei guardava um censo silencioso

das almas que desapareceram sem testemunha.

 

Minha mãe ensinou-me que o pão tem um pulso,

que a fome não é apenas a ausência de alimento,

mas a língua pela qual a História

pergunta se Deus ainda permanece desperto.

 

Vi reis refletidos em espelhos partidos,

mendigos carregando impérios nos bolsos,

e amantes que se beijavam como se cada boca

fosse o último país ainda não consumido pelo fogo.

 

O tempo não é um rio.

É um violinista cego

tocando sob a forca,

na esperança de que alguém confunda tristeza com música.

 

O que é o perdão,

senão ensinar a própria ferida

a florescer sem exigir sangue?

 

Os corvos conhecem a resposta.

Não erguem monumentos,

e, ainda assim, herdam todos os campos de batalha.

 

Nesta noite, enterrei outra versão de mim.

Ela vestia o meu sorriso como roupa emprestada

e acreditava que o amanhã

ainda podia ser negociado.

 

A terra o recebeu com delicadeza,

como as mães recebem os filhos

que regressam tarde demais

para explicar por que partiram.

 

Acima de nós, as estrelas ensaiavam

a sua antiga indiferença.

Até a luz, depois de viajar por eras,

chega já assombrada.

 

Se o amor existe,

não é o fogo.

 

É a cinza

que ainda se lembra

da forma da chama.

  • Autor: enitnatsnoC oãoJ (Offline Offline)
  • Publicado: 27 de julho de 2026 19:27
  • Categoria: Gótico
  • Visualizações: 3


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