A Catedral Erguida das Cinzas
por João Constantine
Tomei emprestado meu nome da chuva,
pois a pedra se lembra menos do que a dor.
Cada rua que atravessei guardava um censo silencioso
das almas que desapareceram sem testemunha.
Minha mãe ensinou-me que o pão tem um pulso,
que a fome não é apenas a ausência de alimento,
mas a língua pela qual a História
pergunta se Deus ainda permanece desperto.
Vi reis refletidos em espelhos partidos,
mendigos carregando impérios nos bolsos,
e amantes que se beijavam como se cada boca
fosse o último país ainda não consumido pelo fogo.
O tempo não é um rio.
É um violinista cego
tocando sob a forca,
na esperança de que alguém confunda tristeza com música.
O que é o perdão,
senão ensinar a própria ferida
a florescer sem exigir sangue?
Os corvos conhecem a resposta.
Não erguem monumentos,
e, ainda assim, herdam todos os campos de batalha.
Nesta noite, enterrei outra versão de mim.
Ela vestia o meu sorriso como roupa emprestada
e acreditava que o amanhã
ainda podia ser negociado.
A terra o recebeu com delicadeza,
como as mães recebem os filhos
que regressam tarde demais
para explicar por que partiram.
Acima de nós, as estrelas ensaiavam
a sua antiga indiferença.
Até a luz, depois de viajar por eras,
chega já assombrada.
Se o amor existe,
não é o fogo.
É a cinza
que ainda se lembra
da forma da chama.