Lenta

Ayalah Verônica Berg

 

Entre os dedos, a taça
treme — tremo de frio.
Escolho o veneno
que queima na língua
antes de descer.
 
De manhã vesti preto,
a noite me despe
só com reflexos.
Os deuses se escondem
na pausa entre o sim
e o nunca mais.
 
Imperfeita: um galho
rachado no espelho.
Cada estilhaço, êxtase...
cada corte, seco
como desculpas.
 
O inverno passa manso,
amante de ferro.
Antes do prato vazio,
deito enquanto caio.
 
Ergo a ruína
como um brinde leve.
O absurdo pede a cereja
na hora do bolo.
 
Tudo se iguala:
o joelho ralado da infância,
o último beijo no escuro.
Mas, agora,
a chama ilumina a ferida
e a ferida cresce.
 
Divertido é morrer
um pouco a cada instante,
olhando para o abismo,
decidindo quando pular.
 
 
Lenta 
de Ayalah Verônica Berg 

 

  • Autor: Ayalah Berg (Pseudónimo (Offline Offline)
  • Publicado: 22 de julho de 2026 17:13
  • Comentário do autor sobre o poema: "Lenta", poema de 2025, que é só mais uns desabafos e lamentos... sobre meu desejo de fugir do inferno... hehe.
  • Categoria: Não classificado
  • Visualizações: 17
  • Usuários favoritos deste poema: Versos Discretos
Comentários +

Comentários4

  • Shmuel

    Que lindo!

    Abraços!

  • Versos Discretos

    Seu poema tem uma força rara: transforma dor, ironia e lucidez em imagens de grande impacto sem perder a delicadeza da linguagem. A progressão dos versos conduz o leitor por um mergulho emocional em que cada metáfora parece inevitável, especialmente em imagens como "a noite me despe só com reflexos" e "Ergo a ruína como um brinde leve", que permanecem na memória. O fechamento é poderoso justamente por não recorrer ao excesso; ele deixa um silêncio inquietante que amplia o efeito do texto. É um poema denso, esteticamente refinado e capaz de provocar reflexão muito depois da última linha.

  • Lux tenebris

    Que profundo...

    • Ayalah Verônica Berg

      Obrigada pela leitura.
      Gostei dos teus escritos... também escreve no Substack?

    • Francisco Queiroz

      São tantas imagens, tantos sentimentos, incrível sua leveza e sua dureza contrastando...
      Muito bom de ler...

      Mas, fiquei na duvida se é mais Ayalah ou Verônica?

      Abraços



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