Entre os dedos, a taça
treme — tremo de frio.
Escolho o veneno
que queima na língua
antes de descer.
De manhã vesti preto,
a noite me despe
só com reflexos.
Os deuses se escondem
na pausa entre o sim
e o nunca mais.
Imperfeita: um galho
rachado no espelho.
Cada estilhaço, êxtase...
cada corte, seco
como desculpas.
O inverno passa manso,
amante de ferro.
Antes do prato vazio,
deito enquanto caio.
Ergo a ruína
como um brinde leve.
O absurdo pede a cereja
na hora do bolo.
Tudo se iguala:
o joelho ralado da infância,
o último beijo no escuro.
Mas, agora,
a chama ilumina a ferida
e a ferida cresce.
Divertido é morrer
um pouco a cada instante,
olhando para o abismo,
decidindo quando pular.
Lenta
de Ayalah Verônica Berg