POEMA DO SOCORRISTA ANÔNIMO

Francisco Claudio Claudio Gia

POEMA DO SOCORRISTA ANÔNIMO

Cláudio Gia, Macau RN, 11 de julho de 2026
Dia Nacional do Socorrista

(Em memória aos que correm sob o sol e a chuva para salvar vidas)

I — O CHAMADO

Quando a sirene rasga o silêncio da cidade,
e o rádio cospe códigos que só os fortes entendem,
ele ergue o corpo cansado da noite mal dormida
e vai.
Não perguntam se está pronto.
Não perguntam se o coração, dentro do peito,
também sangra.

Macau — terra de sal e vento salgado —
testemunha a corrida.
Mas a estrada, que devia ser breve,
é feita de fios invisíveis:
um telefone que toca em João Câmara,
uma voz que autoriza,
um carimbo que espera,
um nome que ainda não chegou.

E o paciente,
na calçada ou no asfalto,
na poeira da estrada ou na curva do destino,
espera.
Não sabe de burocracias.
Sabe apenas que a vida,
naquele instante,
cabe no fio de uma ligação.

II — A DEMORA QUE SALVA

Ah, mas que ironia amarga!
Para salvar um corpo,
é preciso vencer primeiro
a máquina de papel,
o protocolo que não corre,
a hierarquia que não respira.

"Qual o nome da família?"
— pergunta a voz do outro lado.
Enquanto isso, a família,
na beira da estrada,
chora sem saber o nome do socorro.

O socorrista, calado,
segura o volante com mãos que já salvaram dezenas.
Ele sabe o caminho.
Sabe a curva.
Sabe o buraco.
Sabe o que fazer quando o coração para.

Mas não pode,
porque antes de correr,
é preciso esperar que uma linha telefônica
decida que a vida
merece pressa.

III — O HERÓI SEM CAPA

Eis o socorrista:
não usa capa, usa colete refletivo.
Não tem superpoderes, tem estetoscópio.
Não voa, mas corre — e corre muito —
contra o relógio,
contra a distância,
contra a indiferença.

Debaixo do sol que queima o asfalto,
ou da chuva que lava as ruas de Macau,
ele está lá.
Com a mão firme,
com o olhar sereno,
com a voz que acalma
quando tudo é pânico.

Ele não escolhe o acidente.
O acidente o escolhe.
E ele vai,
mesmo quando a alma está pesada,
mesmo quando o corpo pede descanso,
mesmo quando a burocracia
— essa ferida invisível —
tenta atrasar o milagre.

IV — O QUE FICA

Hoje, 11 de julho,
dia dos que salvam,
eu, Cláudio Gia,
das margens salgadas de Macau RN,
ergo esta palavra como um canto:

Não ao socorrista que espera,
mas ao que corre.
Não ao papel que emperra,
mas à mão que estende.
Não à voz que pergunta o nome,
mas ao gesto que não pergunta:
apenas salva.

Que a estrada de João Câmara
seja mais curta para quem precisa.
Que o telefone toque mais rápido
para quem agoniza.
Que a vida,
sempre a vida,
seja a única urgência.

V — SALVE, SOCORRISTA!

Salve o que sai de madrugada,
quando o mundo dorme e a dor não dorme.
Salve o que chega antes da pergunta,
antes da assinatura,
antes do "está autorizado".

Salve o que segura a mão do ferido
e diz, sem palavras:
"Você não está sozinho."

Salve o herói anônimo
que não quer placa,
não quer homenagem,
não quer nada além
de ver o outro abrir os olhos
e viver.

Hoje, 11 de julho de 2026,
Macau RN se curva,
mesmo com seus atalhos e burocracias,
para dizer:

Obrigado, socorrista.
Obrigado por correr
por todos nós.



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