POEMA DO SOCORRISTA ANÔNIMO
Cláudio Gia, Macau RN, 11 de julho de 2026
Dia Nacional do Socorrista
(Em memória aos que correm sob o sol e a chuva para salvar vidas)
I — O CHAMADO
Quando a sirene rasga o silêncio da cidade,
e o rádio cospe códigos que só os fortes entendem,
ele ergue o corpo cansado da noite mal dormida
e vai.
Não perguntam se está pronto.
Não perguntam se o coração, dentro do peito,
também sangra.
Macau — terra de sal e vento salgado —
testemunha a corrida.
Mas a estrada, que devia ser breve,
é feita de fios invisíveis:
um telefone que toca em João Câmara,
uma voz que autoriza,
um carimbo que espera,
um nome que ainda não chegou.
E o paciente,
na calçada ou no asfalto,
na poeira da estrada ou na curva do destino,
espera.
Não sabe de burocracias.
Sabe apenas que a vida,
naquele instante,
cabe no fio de uma ligação.
II — A DEMORA QUE SALVA
Ah, mas que ironia amarga!
Para salvar um corpo,
é preciso vencer primeiro
a máquina de papel,
o protocolo que não corre,
a hierarquia que não respira.
"Qual o nome da família?"
— pergunta a voz do outro lado.
Enquanto isso, a família,
na beira da estrada,
chora sem saber o nome do socorro.
O socorrista, calado,
segura o volante com mãos que já salvaram dezenas.
Ele sabe o caminho.
Sabe a curva.
Sabe o buraco.
Sabe o que fazer quando o coração para.
Mas não pode,
porque antes de correr,
é preciso esperar que uma linha telefônica
decida que a vida
merece pressa.
III — O HERÓI SEM CAPA
Eis o socorrista:
não usa capa, usa colete refletivo.
Não tem superpoderes, tem estetoscópio.
Não voa, mas corre — e corre muito —
contra o relógio,
contra a distância,
contra a indiferença.
Debaixo do sol que queima o asfalto,
ou da chuva que lava as ruas de Macau,
ele está lá.
Com a mão firme,
com o olhar sereno,
com a voz que acalma
quando tudo é pânico.
Ele não escolhe o acidente.
O acidente o escolhe.
E ele vai,
mesmo quando a alma está pesada,
mesmo quando o corpo pede descanso,
mesmo quando a burocracia
— essa ferida invisível —
tenta atrasar o milagre.
IV — O QUE FICA
Hoje, 11 de julho,
dia dos que salvam,
eu, Cláudio Gia,
das margens salgadas de Macau RN,
ergo esta palavra como um canto:
Não ao socorrista que espera,
mas ao que corre.
Não ao papel que emperra,
mas à mão que estende.
Não à voz que pergunta o nome,
mas ao gesto que não pergunta:
apenas salva.
Que a estrada de João Câmara
seja mais curta para quem precisa.
Que o telefone toque mais rápido
para quem agoniza.
Que a vida,
sempre a vida,
seja a única urgência.
V — SALVE, SOCORRISTA!
Salve o que sai de madrugada,
quando o mundo dorme e a dor não dorme.
Salve o que chega antes da pergunta,
antes da assinatura,
antes do "está autorizado".
Salve o que segura a mão do ferido
e diz, sem palavras:
"Você não está sozinho."
Salve o herói anônimo
que não quer placa,
não quer homenagem,
não quer nada além
de ver o outro abrir os olhos
e viver.
Hoje, 11 de julho de 2026,
Macau RN se curva,
mesmo com seus atalhos e burocracias,
para dizer:
Obrigado, socorrista.
Obrigado por correr
por todos nós.
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Autor:
Claudio Gia (Pseudónimo (
Offline) - Publicado: 11 de julho de 2026 09:52
- Categoria: Não classificado
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